O primeiro espetáculo curitibano da Mostra Contemporânea do 10º Festival de Teatro faz sua estréia hoje, às 21h30, no inusitado palco do túnel do Parque Tanguá, no bairro do Pilarzinho. O ator Guilherme Schiffer Durães, 44 anos, apresenta a montagem "A-tor-men-ta-do Calibanus", criada a partir do texto "A Tempestade", de Willian Shakespeare.
Para estrear o espetáculo, Durães - que também assina texto e direção - escolheu como cenário uma espécie de caverna no meio de um lago, onde desemboca uma queda d"água. Além disso, um paredão é aproveitado na projeção de sombras do protagonista. Em caso de chuva forte, o espetáculo será apresentado somente dentro do túnel. O espaço acolhe até 150 pessoas.
Auxiliado por Margarida Rauen na tradução e assistência de direção, Durães criou o texto a partir de um aspecto do clássico shakespeariano: a relação entre Próspero, sua filha Miranda e o nativo Calibã numa ilha. Com o tempo, Miranda e Calibã se envolvem, mas Próspero impede o relacionamento porque a garota já está comprometida com o nobre Ferdinando.
"Parto dessa relação de preconceito fazendo uma leitura contemporânea", explica o autor. "É aí que entro com a minha ficção. Calibã vai para a Europa atrás de Miranda, que se casa com Ferdinando. Mas é com Calibã que ela acaba tendo uma filha, a mestiça Sycorax I (em homenagem à mãe de Calibã, tida como bruxa no texto de Shakespeare)", relata.
O autor conta que Próspero deserda a filha e lança uma maldição para que Sycorax I só tenha filhas mulheres e, assim, encerre a dinastia. "Questiono essa visão patriarcal no contexto social", diz. Diante de um Brasil pobre, contraditório, miscigenado, patriarcal e brutal, a dramaturgia de Durães contrapõe o tormento de Calibanus à soberba metropolitana de Próspero. "Neste espetáculo dialogo com Shakespeare, utilizando partes do texto", explica. Trechos de "A Tempestade" usados em cena foram traduzidos por Margarida Rauen a partir do Fólio, a primeira tradução do texto, datada de 1623.
Em "A-tor-men-ta-do...", Durães utiliza máscaras/bonecos para discutir as contradições nas falas shakespearianas. "Não incorporo o personagem Calibanus. Estou saindo do teatro stanislaviskiano; isso se fazia na época de Shakespeare. Agora trabalho mais a linguagem do distanciamento", detalha Durães. Ele inicia o espetáculo como um ator que fala de um Calibanus aculturado e que chega ao mundo de hoje esfacelado, no ápice de seu amargor. O figurino básico do ator traz signos da representação do conhecimento e é complementado por uma capa com letras de jornais (alusão aos livros de Próspero). "Ao final, ele se despe desse figurino para cair na figura de um palhaço enlutado", conta.
Durães assume a influência de Brecht no seu trabalho, ao mesmo tempo em que parte em busca de outra dialética. "Não busco o teatro marxista de Brecht. Meu teatro é o teatro da vontade de mudar as coisas. Por isso este espetáculo pode ser visto como transgressor", afirma o ator, que tem 27 anos de carreira.
O ponto alto de "A-tor-men-ta-do Calibanus", na opinião de Durães e Margarida Rauen, é a homenagem a Esmeralda do Carmo Ortiz, uma garota que relata sua história de menina de rua no livro "Esmeralda - Por que Não Dancei" (editora Senac). Hoje com 20 anos, ela contou na obra a vida da garota que fugiu de casa aos oito anos de idade e viveu todas as violências da ruas. Para Durães, ela representa uma metáfora de Calibã, da figura marginalizada. "Ela é calejada pela vida como Calibã. E ela estará aqui para participar do espetáculo", antecipa.
Esmeralda fará uma figuração no que Durães chama de momento brechtiano (distanciamento), quando no meio do espetáculo ele chama a menina até o palco. "Faço um break na mais pura postura brechtiana. Leio o texto e a apresento, ilustrando a cena e o preconceito que quero mostrar". Depois do espetáculo, Esmeralda Ortiz vai divulgar seu livro no Café do Teatro. "Por que Não Dancei" teve coordenação editorial de Gilberto Dimenstein e patrocínio do Bank Boston.
Serviço: "A-tor-men-ta-do Calibanus", estréia do espetáculo curitibano na Mostra Contemporânea. Hoje, às 21h30, no Parque Tanguá (Pilarzinho), com reapresentação amanhã, às 20 horas. Duração: média de 1h20. Texto, direção e atuação: Guilherme Durães. Tradução e assistente de direção: Margarida Rauen. Coreografia: Ronald Pinheiro. Cenografia e adereços: Délcio Dembisky. Iluminação: Luiz Antonio Nobre. Produção: Louriete Santos.