Há uma definição popular que atribui aos clássicos certa atemporalidade. Clássico é aquele que fica para sempre, costumam dizer o público e os críticos. Pois até as distribuidoras de DVD no Brasil estão confiantes nessa definição. A Fox, por exemplo, traz 17 títulos em formato digital. E em estilos variados - westerns, dramas históricos, ficção científica e dramas urbanos. Todos com boa qualidade. Os lançamentos são comandados por um pacote especial com quatro produções expressivas do cinema clássico americano, ''A Malvada'', ''A Luz é Para Todos'', ''Como Era Verde Meu Vale'' e ''Tarde Demais Para Esquecer''. Dos três , só o último já estava disponível em vídeo.
''A Malvada'' (All About Eve, 1950, 138 minutos) talvez seja a maior injustiça que as distribuidoras já fizeram com um filme. Como ausentar do público brasileiro a obra-prima que consagrou o estilo teatral do diretor e roteirista Joseph L. Mankiewicz? A trama que envolve duas atrizes, a malvada Anne Baxter e a personalíssima Bette Davis, concorreu a 14 categorias do Oscar, recebendo apenas seis estatuetas. É um filme essencial, daqueles que se vê a cada ano, sempre trazendo uma certa característica do mundo do teatro e das atrizes que você não tinha percebido. Repare na bela Marilyn Monroe, ainda nova e ingênua, fazendo um dos seus primeiros papéis relevantes.
Se você achava que os melhores trabalhos de John Ford eram ''Rastros de Ódio'', ''O Homem que Matou o Facínora'' ou ''Depois do Vendaval'', pode ficar em dúvida depois de assistir a ''Como Era Verde Meu Vale'' (How Green Was My Valley, 1941, 119 minutos). Esse é o filme que retirou de ''Cidadão Kane'' o Oscar de melhor filme. Mostra o grande Walter Pidgeon, aos 60 anos, relembrando a sua vida quando garoto em uma pequena cidade mineradora. Vencedor de cinco Oscar (filme, diretor, ator coadjuvante, arte e cinematografia), esse western só não é melhor do que uma preciosa adaptação que Ford fez de John Steinbeck, ''As Vinhas da Ira'', ainda indisponível em vídeo e DVD.
Elia Kazan ainda não era o grande Elia Kazan, mas já tinha o apoio dos estúdios quando decidiu retratar um tema tabu em Hollywood (ao menos a Hollywood daquela época), o anti-semitismo. Adaptando a obra de Laura Z. Hobson's, Kazan mostra em ''A Luz é Para Todos'' (Gentleman's Agreement, 1947, 118 minutos), um jornalista (Gregory Peck) que finge ser judeu para investigar a natureza e o modus operandi do preconceito racial nos EUA. Obra de fôlego, com o rigor e preciosismo de Kazan. Vencedor de três Oscar - melhor filme, diretor e atriz coadjuvante (Celeste Holm).
Finalizando o pacote especial, a segunda versão de um drama cinematográfico, ''Tarde Demais Para Esquecer'' (An Affair To Remember, 115 minutos). Leo McCarey já havia adaptado a mesma trama em ''Duas Vidas'', nos anos 30, e decidiu, em 1957, voltar ao desencontro que marcou o romance entre Cary Grant e Deborah Kerr. A história é simples: milionário encantador se apaixona por moça em um transatlântico e decide largar seu noivado. Marcam um encontro no Empire State Building. Ela não vai e ele nunca mais ouve falar dela. Até que...
McCarey era especialista em comédias e melodramas, alternando nesse filme essas duas linhas que o consagraram. Era sóbrio na tristeza e muito audacioso em sua veia cômica. Um cineasta a ser revisto, com muitas obras ignoradas.
Mesmo sendo rodado em 1969, há uma produção que antecipa o que foi parte de Hollywood nos anos 70, uma indústria madura, disposta a acreditar em novos cineastas (Coppola, Scorsese, Spielberg) e que trouxe ao grande público temas que antes eram relegados aos filmes B. Em síntese, a América começou a ser desnudada. E uma das produções que iniciou esse processo foi a pequena obra-prima de John Schlesinger, ''Perdidos na Noite'' (Midnight Cowboy, 113 minutos), estrelada por Dustin Hoffman e John Voight. Os dois se conhecem em uma Nova York já desumanizada e começam a compartilhar suas angústias. A América dos sonhos é aqui um lugar para poucos, não para cavalheiros que seguem seus sentimentos e pretendem seguir seus ideais. Vencedor de três Oscar (melhor filme, direção e roteiro), a versão em DVD só traz um extra, o trailer original. Mas o filme é ótimo, daqueles que seu coração não se esquece mais.
Se você quiser esquecer o tempo que passou na sala de cinema para ver ''Pearl Harbor'', deve se voltar ao melhor registro já feito sobre o ataque à base americana que impulsionou a entrada dos EUA na segunda guerra mundial. ''A Um Passo da Eternidade'' (From Here To Eternity, 1953, 118 minutos), de Fred Zinnemann, reúne um elenco poucas vezes igualável nas telas: Burt Lancaster, Deborah Kerr, Montgomery Clift, Frank Sinatra e Ernest Bognine. Duas cenas sintetizam o prazer de assistir a essa obra - na primeira, Lancaster agarra Kerr e a beija em volta de uma praia deserta; em outra, Clift chora a morte do amigo Sinatra transmitindo em seu trompete uma tristeza imprópria do mundo das palavras. Os extras trazem trailers originais, o documentário ''The Making of From Here To Eternity'' e fichas de atores e realizadores.