No universo das histórias em quadrinhos (também chamada de arte seqüencial, quando direcionada a leitores adultos), o nome do paulista Lourenço Mutarelli está muito bem cotado entre os artistas do gênero no Brasil. Há 10 anos lançando álbuns com histórias longas, Mutarelli está atualmente envolvido na trilogia do detetive Diomedes, iniciada em 1999, com um livro da história lançado ao final de cada ano.
O personagem Diomedes nasceu da necessidade que o autor sentiu de criar um detetive particular. O resultado é um tipo baixinho, gordo, careca, de bigode fino, que lembra uma mistura de Charlie Chan (personagem de um desenho de detetives japoneses da Hanna Barbera) com o ator global José Lewgoy. Diomedes é um delegado de polícia aposentado que faz bico como detetive para sobreviver. Se acha um fracasso pessoal e profissionalmente. Talvez por isso exagere na bebida, no cigarro e tenha um caráter pouco confiável.
Neste mês de novembro foi lançada a terceira parte, intitulada "A Soma de Tudo", com festas de lançamento quase simultâneas em São Paulo e Curitiba (esta, realizada em 30 de novembro na loja de quadrinhos Itiban, que comercializa os livros de Mutarelli na cidade). Por ironia do destino, as duas capitais foram castigadas por fortes tempestades que atrapalharam um maior comparecimento de público. "Não fico chateado com isto, pois tenho leitores fiéis que sempre comparecem aos meus lançamentos. O importante não é a quantidade", orgulha-se Mutarelli.
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Este foi o terceiro ano consecutivo em que Mutarelli é convidado a lançar seu novo livro em Curitiba. Em 1999, a trilogia estreou com a primeira parte, "O Dobro de Cinco", em que Diomedes se encarrega de encontrar um mágico de circo desaparecido. No ano seguinte, veio o capítulo intermediário, "O Rei do Ponto", em que o detetive é chantageado e se torna bode espiatório de uma série de assassinatos. Os leitores que estavam ansiosos para chegar ao fim da trama de Diomedes com "A Soma de Tudo" vão encontrar uma surpresa: o terceiro livro foi dividido em duas partes, sendo que a segunda será lançada no ano que vem.
O acréscimo não foi promocional, mas espontâneo. "Quando terminei 'O Dobro de Cinco', imaginei lançar os dois últimos volumes com intervalo de um ano cada, que é o tempo que levo para produzir um livro de cem páginas. Mas neste ano, quando estive em Portugal, participando de um grande evento de quadrinhos, surgiram novas idéias, o que fez aumentar o número de páginas. Preferi desmembrá-lo em duas partes para que não ficasse com mais um ano de silêncio entre um lançamento e outro", explica Mutarelli.
Diomedes em Lisboa
Em "A Soma de Tudo", Diomedes torna-se um detetive intercontinental, ficando encarregado de resolver uma trama em Lisboa. Como se vê, Portugal foi uma influência forte para o autor. "Antes de chegar ao festival, imaginava que eu seria um ilustre desconhecido no evento. Mas não foi bem assim. Além de ter sido muito bem recebido por lá, o festival havia montado uma exposição com vários desenhos meus ampliados. Na sala 'Mutarelli' havia um imenso Diomedes me aguardando. Fiquei muito emocionado. A viagem de Diomedes a Lisboa expressa a minha gratidão por Portugal", declara.
O público antigo de Mutarelli aceitou bem a trilogia, que trouxe mudanças na carreira do quadrinista. Ele antes lançava fortes histórias escatológicas, que exploravam os limites psicológicos e físicos do ser humano - influência da época em que o autor sofria de depressão. "Transubstanciação" (1991), "Desgraçados" (1993), "Eu Te Amo Lucimar" (1994), "A Confluência da Forquilha" (1997) e "Seqüelas" (1998) foram seus álbuns anteriores, todos contemplados com o HQ Mix, a premiação mais importante para os quadrinhos no Brasil.
Com a trilogia, o autor passou a explorar o gênero policial. Das histórias ilustradas dos cinco primeiros álbuns (com muita narração e depoimentos em off), o estilo passou a ser de arte seqüencial propriamente dita, com diálogos. "É complicado desenvolver diálogos para quadrinhos, ainda mais para mim, que sou recluso e não converso muito", comenta com ironia. A mudança mais notável é a "durabilidade" do detetive Diomedes, que está vivo na história, sendo que Mutarelli tem o costume de eliminar o protagonista em seus livros. “Gosto muito do Diomedes e não pretendo matá-lo. Prefiro abandoná-lo do que matá-lo”, finaliza Mutarelli, que congitou lançar histórias curtas do detetive após a conclusão da trilogia.