Não fosse a discriminação, a má vontade, a intolerância do espectador brasileiro ao produto não estandartizado segundo moldes hollywoodianos e ôAmor à Flor da Pele" (veja a programação de cinema na página 5) poderia ser o ôCasablanca" deste novo século, e o diretor Wong Kar-wai aclamado como um dos autênticos, raros, derradeiros poetas que sobrevivem no cinema contemporâneo. É muito? Pois vá ver o filme, se ainda não viu, e caia de amores por esta história universal.
Ambientada numa Hong Kong em transformação no início dos anos 60. ôIn the Mood for Love" é um filme de dois personagens quase excludentes, na linha do Bertolluci de ôUltimo Tango em Paris" e do mais recente ôBeguiled": o senhor Chow (Tony Leung, premiado como melhor ator em Cannes-2000) e senhora Chan (Maggie Cheung) se mudam no mesmo dia e na mesma hora para apartamentos vizinhos no mesmo prédio. Ali trocam os primeiros e devastadores olhares, mas alguma coisa os separa, além de uma parede de cimento: ambos são casados e vivem numa sociedade conservadora. Wong Kar-wai jamais mostra os rostos dos respectivos conjuges, somente os pés e as costas. Mas logo ficará claro que eles, os outros, estão vivendo um caso.
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Em quase todos os planos - cada um deles praticamente tão belo que mereceria figurar numa galeria de arte - se vê os dois personagens principais através de janelas, refletidos em espelhos ou em meio a objetos e coisas do ambiente que dificultam a visão. Wong-Kar-wai pretende assim que o espectador se tranforme em voyeur, já que todo o filme se sustenta na impressão que têm o senhor Chow e a senhora Chan de se sentirem observados, espionados, ultrajados em sua intimidade. E por isso é que vivem se justificando: ôNão vamos ser como eles", se dizem durante os encontros clandestinos, como para confirmar que a relação percorre outros caminhos contrários aos da traição e do engano de seus respectivos conjuges.
"Amor à Flor da Pele" é a um só tempo filme suntuoso e minimalista, livre porém claustrofóbico. É uma narrativa que trabalha em cima da repetição - a musica, os lugares, as situações. Kar-wai, apaixonado pela sonoridade e pela literatura da América Latina , já havia utilizado Perez Prado, Astor Piazzolla e Caetano Veloso em filmes anteriores. Aqui recorre a três classicos cantados em espanhol por Nat King Cole, que se revelam absolutamente funcionais para emoldurar as emoções propostas pela trama. Maggie Cheung e Tony Leung, atores-fetiche do cineasta, são intérpretes perfeitos, insubstituíveis neste melancólico épico romantico de enorme erotismo - embora nenhum centímetro de pele se ofereça ao espectador.
É um filme para ser descoberto e desfrutado em boas condições físicas, aos poucos, sem stress. Clássica história de amor entre um homem e uma mulher que se conhecem por acaso, se seduzem, se desejam , se amam mas nunca conseguem ficar juntos, ôAmor à Flor da Pele" é a prova do talento de um artista que sabe como poucos combinar imagens e sons para obter uma original estética da paixão.