Nove dias após tomar posse, o novo presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Cássio Chamecki, finalmente deu a sua primeira entrevista à imprensa. A coletiva foi na manhã de ontem, no Teatro Londrina do Memorial de Curitiba. Além de falar sobre seus projetos, Chamecki respondeu a inúmeras perguntas sobre o Festival de Teatro de Curitiba, do qual é um dos fundadores e o qual tem na Prefeitura de Curitiba o seu principal patrocinador.
Chamecki afirmou que haverá total transparência em sua gestão. Ele garante que já se desligou oficialmente da Calvin Entretenimento e da Associação para Incentivo da Cultura e Entretenimento (Apice), instituições responsáveis pelo festival. Segundo Chamecki, ambas estão agora sob comando exclusivo de Vítor Aronis, já que o terceiro sócio, Leandro Knopfholz, também fará parte da cúpula da Fundação Cultural de Curitiba, no cargo de diretor de Música e Artes Cênicas.
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O novo presidente da Fundação tem 29 anos e é engenheiro eletrônico formado pela Fundação Armando Álvares Penteado, de São Paulo. Além do Festival de Teatro de Curitiba, era um dos organizadores do Festival de Dança de Joinville (SC) e gerenciava dois empreendimentos próprios, o Bar Sucatão e o Restaurante do Passeio, atividades das quais está se afastando por um período de quatro anos.
Acompanhe a seguir trechos da entrevista concedida por Chamecki:
Folha: Quando você foi convidado para assumir a Fundação?
Chamecki: Por volta do dia 27 ou 28, na semana anterior a posse. O prefeito (Cássio Taniguchi) me falou exatamente o seguinte: que a intenção era fazer uma gestão nunca antes vista na Fundação Cultural de Curitiba. Promover uma efervescência cultural única. Ele quer uma gestão absolutamente moderna e descentralizada.
F: Você já estava sendo sondado?
C: Não, foi mais ou menos de última hora. Eu sempre tive um relacionamento muito bom com o prefeito. Ele sempre me atendeu e sempre conversamos muito sobre idéias que eu tinha na área cultural ou projetos para a cidade. Nunca entretanto tínhamos tocamos no assunto da presidência da Fundação Cultural.
F: Então o convite foi uma surpresa?
C: Eu me surpreendi com o convite, mas era uma situação que eu esperava que algum dia na minha vida fosse acontecer.
F: Esta foi a primeira vez na história que os artistas conseguiram se organizar e entregar ao prefeito uma lista tríplice que sugeria possíveis nomes para a presidência da Fundação. Como você se sente tendo sido escolhido pelo prefeito, a revelia de toda a classe?
C: A lista tríplice foi apenas uma sugestão e o prefeito deixou claro que não necessariamente aceitaria um daqueles nomes. Veja bem, o cargo de presidente da Fundação Cultural de Curitiba é decisão do prefeito e a idéia dele para esta função talvez seja um pouco diferente do perfil das três pessoas indicadas. Talvez ele veja em mim um perfil mais próximo ao que ele espera para o cargo.
F: Como será o seu diálogo com a classe?
C: Agora, no dia 29, acontecerá um seminário que vai discutir quais são os anseios da classe, o que irá pautar a administração da Fundação Cultural de Curitiba. Pretendo pautar as decisões da Fundação pelos anseios da classe artística.
F: Como você pretende lidar com as críticas vindas da classe artística?
C: A maior parte destas críticas é em função de não se saber ainda o que eu vou fazer, dos passos que vou seguir na Fundação. Acredito que estas críticas devam se desfazer com o trabalho que for sendo desenvolvido. Quem está criticando agora são pessoas que não me conhecem, que nunca trabalharam comigo.
F: As críticas da classe não parecem ter relação com seus futuros projetos, mas sim com o fato de você estar vindo da iniciativa privada. O Festival de Teatro de Curitiba movimenta muito dinheiro e é isto que está causando inidignação entre os artistas. O que você tem a dizer a eles?
C: O Festival de Teatro tem dez anos de existência e há oito a prefeitura o apoia, como patrocinadora. Uma das primeiras perguntas que eu fiz ao prefeito foi "o fato da minha empresa fazer o Festival não irá gerar uma situação desconfortável?". O prefeito então me respondeu que eu só estava sendo convidado para assumir a Fundação justamente em função do bom trabalho desenvolvido pelo Festival de Teatro. Ele me disse ainda que, a partir dali, as coisas teriam que ser desvinculadas e que eu teria que estar disposto a adiar meus planos pessoais e minha carreira privada por quatro anos. E é isto que eu estou fazendo.
F: A prefeitura continuará patrocinando o Festival de Teatro?
C: O prefeito me falou que será mantida a verba, que é a mesma (R$ 300 mil) há alguns anos. Ele reafirmou o compromisso da prefeitura como patrocinadora do Festival.
F: Mas o que muda, então? Apenas o fato de você não estar mais ligado ao escritório da Calvin e estar agora no gabinete da Fundação Cultural de Curitiba? O Festival de Teatro acontecerá do mesmo jeito?
C: Eu e o Leandro já estamos afastados na executiva da Calvin há dois anos. Nós participávamos da curadoria artística do Festival. Eu estava mais dedicado ao meu restaurante e aos negócios da minha família, que são do setor imobiliário. Quem já estava a frente executivamente do festival era o Vítor. A minha dedicação agora vai ser exclusiva à Fundação, onde vou ter uma gestão absolutamente transparente. Não tenho nada a esconder.
F: Quem será a sua equipe? Alguma mudança na atual estrutura?
C: Sim. O Leandro veio junto, ele fará parte da equipe da Fundação como diretor de Música e Artes Cênicas. Outra pessoa é Rafael Perry, formado pela Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM/SP). Ele tem uma capacidade administrativa, de novas idéias e de motivação fora do comum. Por isso fiz questão de que compusesse a minha equipe.
F: Como a Fundação vai se enquadrar na atual política municipal que é de privilegiar cada vez mais o social?
C: Vou dar um exemplo: existe agora uma mania de pichação na cidade. Vamos tentar fazer oficinas de grafite, identificar quem são os grafiteiros, oferecer espaço para que esta ação não seja de vandalismo, mas cultural. Esta é uma ação social.
F: Que projetos serão priorizados?
C: Projetos que trabalhem com a mudança de mentalidade nas pessoas. É preciso que haja um orgulho cultural de se morar em Curitiba. Uma das únicas coisas que eu modifiquei na Oficina de Música, por exemplo, foi pedir que grupos de orquestra e flautas se apresentassem em áreas diferentes dos teatros regulares, nas ruas da Cidadania, para que cheguem realmente à população.
F: Haverá alguma mudança na Lei Municipal de Incentivo à Cultura?
C: Eu tenho algumas idéias novas, mas que irão depender ainda de muitas conversas. Minha opinião pessoal é de que a Lei tenha degraus diferentes em função da experiência do proponente. É preciso que haja uma política que incentive o surgimento de novos talentos. Uma das coisas que eu pretendo fazer é um manual de utilização da Lei, para as pessoas que não entendem o mecanismo e o método correto de dar entrada na Lei.
F: Qual é o orçamento atual da Fundação Cultural de Curitiba?
C: Para 2001 é de R$ 14,11 milhões, mas no ano passado o orçamento inicial era o mesmo e o final chegou a R$ 16,46 milhões. O prefeito está com grande predisposição em agilizar a área cultural e eu pretendo promover uma redução de gastos.
F: Como você fará isto?
C: Através da medidas administrativas, como a diminuição na utilização de carros e a concentração da estrutura administrativa num prédio só, por exemplo.