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Crônica

Carnaval, quando os anônimos são as estrelas

Célia Musilli - Folha de Londrina
02 mar 2003 às 17:28

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Tem gente que boceja e acha a festa sem graça. Outros não vêem a hora do carnaval chegar e botar pra fora os bichos que corroem ânimos em silêncio. Seja como for, a folia estanca o Brasil, onde tudo pára até quarta-feira de Cinzas.

Nas cidades do interior, o carnaval pode não ter a energia majestosa dos desfiles do Rio nem a alegria autêntica das ruas de Olinda e Salvador. Seja como for, a qualquer sinal de samba nas ruas e praças, os pés não ficam parados, o corpo rebola, acompanha sem querer o baticum que pega o brasileiro por dentro, nas entranhas, dando sentido à frase famosa que diz ''quem não gosta de samba bom sujeito não é''.

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Muita gente já viu escola atravessar o samba, mas mesmo quando o surdo perde o compasso a gente torce para que tudo volte ao normal, reenquadrando a alegria de uma evolução bem marcada. Quando tudo corre às mil maravilhas e os ritmistas acertam em cheio, melhor ainda, a gente pensa que está na Marquês de Sapucaí, acha que foi teletransportado, está frente a frente com aqueles mestres que comandam a bateria como se carnaval fosse caso de vida ou morte.


O autêntico sambista, senhores e senhoras, faz qualquer negócio para sua escola brilhar. No interior ou nos grandes reinos de Momo a garra de um bom comandante não esmorece.

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Um desses tipos era Ticão, um mestre do interior que sonhava ser grande e passava 365 dias do ano convencendo seus ritmistas a ''segurar'' direito os tamborins e as cuícas para a escola de 30 gatos pingados passar bonita nas ruas da pequena cidade onde samba e carnaval eram sinônimos de gente miúda, comunidade pobre, povo de segunda classe. Pois Ticão passava pelos desaforos e não desistia.


Um dia tirou a sorte grande quando um general do samba do Rio o convidou para ser ritmista da Mangueira. Ticão não pensou duas vezes, arrumou mala e cuia, já no carnaval seguinte brilhou no desfile que pôs a tevê e os jornais de quatro aos pés daquela gente pobre e anônima que todo mundo desconhece nos outros dias do ano.

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Ao fim do desfile das escolas do primeiro grupo, Ticão ouviu seu coração bater mil vezes no mesmo ritmo do surdo. Mas a emoção foi demais para quem nunca tinha passado da avenida dos Canários de uma cidadezinha perdida nos fundões do Paraná. Na vibração do último toque Ticão morreu, de carnaval.


Dizem que até hoje sua alma paira na Marquês de Sapucaí e que ele adora, nos dias de folia, visitar também mundos perdidos do interior do Brasil só para lembrar velhos parceiros que o samba é um ícone de união nacional, um toque que faz crescer os brasileiros que de anônimos passam à primeira classe, condição bem merecida em todos os dias do ano.

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O surdo firme de Ticão o que morreu de carnaval é uma lição para nossos ouvidos.


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