O diretor Guel Arraes e os atores Luis Melo e Camila Pitanga vieram a Curitiba para participar da pré-estréia de ‘Caramuru - A Invenção do Brasil’. Após grande sucesso na TV, em formato de mini-série, a produção foi adaptada para o cinema e chega amanhã a 120 salas do Brasil, sendo três em Curitiba e uma em Londrina.
Com muito bom humor, o filme narra a lenda do casamento entre o português Diogo Álvares/ Caramuru (Selton Mello) e da índia Paraguaçu (Camila Pitanga), tendo como cenário o paraíso tropical que o Brasil era na época de seu descobrimento.
Após muita pesquisa feita pelos roteiristas Guel Arraes e Jorge Furtado, a filmagem foi concluída em oito meses, com locações no litoral paulista e em Portugal. O resultado final é saboroso. O encontro entre os dois mundos revela com sutileza o choque entre o velho e o novo, o preconceito e a autenticidade, o paraíso e a devastação.
A nitidez perfeita das imagens foi possível graças ao sistema HDTV. Trata-se da primeira experiência no Brasil de um filme originalmente registrado com câmera digital de alta definição.
Com orçamento médio de R$ 2,5 milhões, o filme conta ainda com direção musical de Lenine, cenografia de Fábio Rangel e belos figurinos de Cao Albuquerque. No elenco estão também Deborah Secco, Tonico Pereira, Debora Bloch, Pedro Paulo Rangel e Diogo Vilela. A seguir, acompanhe alguns trechos da entrevista coletiva concedida ontem pela manhã, em Curitiba.
Folha - Você fez a mini-série ‘Caramuru - A Invenção do Brasil’ pensando no filme ou vice-versa?
Guel Arrares - Na verdade, foi pensando nos dois. É diferente do ‘Auto da Compadecida’, que na TV já tinha um formato de filme e eu só enxuguei para o cinema. Em ‘Caramuru’ são formatos diferentes, linguagens diferentes. O que eu e o Jorge Furtado (roteirista) queríamos de qulaquer jeito era contar a história de Caramuru e Paraguaçu. Tivemos a oportunidade de fazer isto na TV, durante as comemorações do descobrimento do Brasil. E então, já começamos a prever a remontagem para cinema.
Folha - Como foi o processo de pesquisa histórica?
Guel Arraes - Em 1999, eu e o Jorge começamos a pensar que o ano seguinte seria ideal para lançar algo que falasse sobre a História do Brasil. A partir daí, começamos a ler, ler, ler e pesquisar muito. Quando surgiu a oportunidade, fizemos a produção com duplo formato.
Folha - Como foi a escolha do elenco?
Guel Arraes - Todo o conceito do filme trabalha o encontro entre o Novo e o Velho Mundo. O elenco também tem esta divisão. Para representar os personagens do Velho Mundo eu apelei para a velha trupe de comediantes, com os quais eu trabalho há muito tempo... Para o Novo Mundo, preferi jovens atrizes, que nos desafiassem, que trouxessem frescor ao filme. Para escolhe-las, eu vi muita fita... Eu sabia que elas teriam um osso duro de roer e que estariam à frente de um time muito experiente. Agora, com o Selton Mello foi diferente. Ele, apesar de jovem, começou a trabalhar muito cedo e tem muita experiência... Costumo dizer que ele é um jovem velho ator (risos). Ele fica exatamente ao meio dessa divisão do elenco...
Folha - Como foi o processo de composição da Paraguaçu?
Camila Pitanga - A preparação foi super importante. Primeiro uma mesa de leituras com todo o elenco. Depois ensaios com marcação. O desafio foi muito grande para mim e para a Déborah (Secco) por causa da língua que as índias falam no filme. Não é um texto coloquial, não é tupi, também não é o português que a gente fala, é quase uma poesia. Tivemos que ralar muito para tornar aquilo orgânico e fluente. Quanto a Paraguaçu, só pude percebê-la definitivamente quando assisti ao filme pronto. Ela mistura pureza, malícia, autenticidade e sensualidade, de uma forma que tem tudo a ver com o comportamento brasileiro. Nós brasileiras temos mesmo um suingue, um remelexo diferente das européias por exemplo. Isso fica bem evidente na Paraguaçu...
Folha - Foi mais difícil que fazer televisão?
Camila Pitanga - O ‘Caramuru’ ’ é um filme diferente: tem uma partitura teatral, quase uma coreografia, num pique e num tempo de televisão, tempo Guel Arraes mesmo (risos), mas os cortes são cinematográficos... Nas minhas duas outras experiências em cinema (filmes que ainda não foram lançados), a experiência havia sido bem diferente.
Folha - Neste momento bom do cinema nacional, até que ponto produções casadas entre TV e cinema, como ‘Caramuru’ e ‘O Auto da Compadecida’ ajudam a levar o grande público ao cinema?
Guel Arraes - Eu acho que os dois podem se ajudar. Filmes do Renato Aragão ou da Xuxa já levam há muito tempo o público da televisão para o cinema. Mas o caminho não é obrigatório e nem garantia de que vai dar certo. A grande questão é se vai agradar ou não, se tem algo a dizer ou não. É claro que a TV pode ajudar sim, afinal é um veículo que há 30 anos produz todos os dias. Agora, ao mesmo tempo, o cinema brasileiro também tem preparado um bom terreno... Por exemplo, chegar hoje com um filme em cartaz é muito melhor que ter chegado dois anos atrás.
Folha - Além de contar a história do Brasil, ‘Caramuru’ tem uma linguagem específica. Isto pode dificultar a sua compreensão no mercado internacional?
Camila Pitanga - Eu acho que o filme pode interessar ao mercado externo sim. É um filme sobre comportamento humano, sobre o encontro de um casal e de dois mundos diferentes. Isso interessa em qualquer lugar.
Miguel Arraes - É, ele é basicamente uma comédia de costumes de época. Mas a gente fez este filme com uma emoção bem brasileira...
Luis Melo - Assim como no ‘Auto da Compadecida’, o filme tem muito de Macunaíma, que mostra a facilidade com que as culturas se mesclam, interagem. E isso é algo que aconteceu e acontece no mundo todo... Não interessa só ao Brasil. Se estamos falando do caráter do homem brasileiro, estamos automaticamente falando do homem universal.
Folha - Já há algo delineado para a carreira internacional do filme?
Guel Arraes - Ainda não temos contatos internacionais. Tudo vai depender do resultado no mercado nacional.
Folha - Este é o primeiro filme nacional a utilizar câmera digital de alta definição. Qual deverá ser o futuro do HDTV no Brasil?
Guel Arraes - A televisão deve começar a investir nisto, porque quem tiver mais filmes e programas em HD no futuro, estará melhor. É como na época em que a TV passou a ser colorida, quem tinha mais programas coloridos se deu bem. O HD também permitirá uma aproximação maior entre o TV e o cinema.