Há pelo menos dois anos, os textos do dramaturgo irlandês Samuel Beckett (1906 - 1989) é tema recorrente na pesquisa do grupo curitibano Processo. O trabalho resultou em um seminário em homenagem ao centenário do escritor, no ano passado. Mas depois de tanta teoria, o grupo parte para a prática e estréia neste começo de março o primeiro espetáculo do autor.
A montagem ''Samuel'' , tem direção de Adriano Esturilho e é dividida em cinco atos. São três espetáculos que foram adaptados pelo diretor dentro da estética das montagens do dramaturgo.
Receba nossas notícias NO CELULAR
WHATSAPP: As regras de privacidade dos grupos são definidas pelo WhatsApp.Ao entrar, seu número pode ser visto por outros integrantes do grupo.
''Nós tentamos explorar a linguagem mais do que a imagem. Vivemos um tempo em que a imagem é muito utilizada, por isso optamos por oferecer uma experiência sensorial diferenciada e suscitar no espectador outros sentidos que não seja a visão'', adianta o diretor, de 28 anos.
A idéia é representada já na abertura da montagem. Nos dois primeiros atos, ''Ato Sem Palavra I e II'', os atores Hermison Nogueira e Andrew Knoll representam através de mímicas e utilizando máscaras. Realizam uma percussão corporal e sons vocais que complementam a sonoplastia da montagem. Em ''Ato Sem Palavras III'', Knoll retorna ao palco para tirar a máscara.
Já ''Fragmento Internáutico I'' é uma livre adaptação de Esturilho, que busca um diálogo entre a obra de Beckett e o tempo e espaço contemporâneos. Nesse ato, a montagem mostra projeções de conversa no MSN, o programa de mensagens instantâneas, entre dois personagens beckettianos.
Em ''Fragmento Radiofônico'', o espetáculo tem a participação do diretor Hugo Mengarelli, que gravou durante 15 minutos os textos de Beckett. ''Beckett tinha muita resistência à transposição das suas peças de rádio para o teatro. Nesse ato, reproduzimos os textos sem ação corporal'', conta.
Além de ser parte do espetáculo, ''Fragmento Radiofônico'' será transmitido pela Rádio Universitária do Paraná e terá 400 CDs distribuídos gratuitamente para bibliotecas públicas, universidades e centros culturais. A intenção de Esturilho é que o público se reúna para ouvir a peça, mantendo assim a intenção original de Beckett que era evitar a adaptação de sua obra radiofônica para o palco.
Este quinto e último ato finaliza as três representações que Esturilho pretende mostrar no espetáculo: as imagens sem palavras, as palavras sem imagens e a palavra escrita, um trio ricamente explorado pelo autor no decorrer de sua carreira.
Os textos escolhidos por Esturilho não são os mais conhecidos de Beckett. E a adaptação se justifica, em parte, pela dificuldade em conseguir liberar os direitos dos espetáculos do diretor irlandês. A obra mais conhecida de Beckett é, sem dúvida, ''Esperando Godot'', que já foi montada em inúmeros países e em diferentes versões. Escrita nos anos 40, a peça foi a primeira experiência consagrada do autor.
Antes disso, ele escreveu '' Eleutheria'' (Liberdade), composta em francês, em 1946, com seus três atos (três tardes consecutivas) e 17 personagens. Trata-se de um texto bem diferente dos que se seguiram e que foram, aos poucos, eliminando a palavra, até reduzi-la ao mínimo, característica principal dos textos de Beckett. ''Nós optamos por seguir a estética do autor, mas damos sequência à linguagem de pesquisa do grupo e talvez isso cause estranheza ao espectador'', avisa o diretor.
Serviço:
Espetáculo ''Samuel''
Datas: de 1º a 11 de março
Horários: de quarta-feira a sábado, às 20h30 e domingos, às 19h30.
Local: Espaço Cultural Falec
Endereço: Rua Mateus Leme, 990, em Curitiba
Ingressos a R$ 10,00 (meia para estudantes, classe, maiores de 60 anos ou com bônus). Quartas-feiras preço único a R$ 2,00