Mané Garrincha, o anjo embriagado dos campos de futebol, estará multiplicado em mais de 120 fotos, em entrevistas registradas em vídeo, crônicas de Ruy Castro, Armando Nogueira, Nelson Rodrigues e nas descrições dos grandes narradores do rádio brasileiro, preservados em vinil a partir de quarta-feira 7, no hall da Biblioteca Pública do Paraná, em Curitiba. A exposição "Garrincha: Alegria do Povo" busca exatamente isso - mostrar para as novas gerações a face do autor de tantas alegrias, e aos mais velhos, trazer de volta essas emoções vividas em anos passados.
O material pertence ao colecionador Arlindo Ventura, paulistano de 27 anos, atualmente residindo em Curitiba, que desde a morte do lendário jogador, em janeiro de 1983, passou a se dedicar a colher todo material que encontra sobre ele. Arlindo tinha 10 anos incompletos quando viu à sua volta a comoção com a perda de Garrincha. "Quando li a primeira revista "Placar" depois da morte do Mané, acabei sentindo um amor pela arte do futebol, por ser também um garoto peladeiro", explica.
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Tomado por essa admiração, nunca mais Ventura foi o mesmo. Já nos tenros dez anos de idade que tinha na época, passou a jogar pensando no drible, e não simplesmente no gol. "A arte está no drible", ensina. Aprendeu rápido com seu ídolo - enfim, essa era a grande arma do ponta direita do Botafogo, que deixava zonzo os adversários, antes de acabar com a brincadeira mandando a bola para a rede. Dava assim o ponto final a uma diversão, espécie de piada que contava para o público, soberano como um clown.
Arlindo Ventura confessa que amarga a frustração de não ter vivido nos anos 50, para poder ver ao menos "um drible só" do mestre Garrincha. "Seria o suficiente", afirma. Como chegou bem depois dessa fase, cuida agora de manter viva a memória do jogador.
O idealismo ampara-se em outras lutas discretas, mas importantes para ele, como as de Nilton Santos e Armando Nogueira."Armando nunca esquece de Mané; Nilton fala dele até hoje. E eu, como amante do futebol arte, tenho que fazer a minha parte para que as pessoas não esqueçam esse futebol. Enquanto estiver aqui vou divulgar, mesmo que de forma simples. A mídia poderia dar uma força a esse tipo de arte, mas hoje tudo é voltado ao comercial".
Numa entrevista dada à TV Cultura de São Paulo, o repórter lembrou a Garrincha de sua decisiva participação na Copa de 62. Este, bem ao seu estilo, comentou que o "espírito de Pelé" tinha entrado em seu corpo. Da mesma forma que seu próprio espírito entrou em Jairzinho para ele ser o goleador na Copa de 70. A essas alturas, o lendário artista dos campos já era uma sombra de seu passado.
"Garrincha, para mim, é aquilo que todo homem deveria ser - íntegro, feito de simplicidade. Simplicidade, no sentido mais nobre da palavra. Não é ingenuidade. Ele era tão simples, e se não fosse assim como foi, talvez eu não me rendesse a ele. A propósito, numa entrevista que deu ao Pasquim, perguntaram o que ele achava da frase "Garrincha, alegria do povo" . Ele respondeu: "O povo é a minha alegria". Só o Mané poderia dizer isso".
Serviço: "Garrincha: Alegria do Povo". Exposição de fotos, crônicas, vídeos de Mané Garrincha, um dos maiores jogadores brasileiros de futebol de todos os tempos. Abre dia de 7 de março e permanece até 29 no hall da Biblioteca Pública do Paraná, Rua Cândido Lopes,133, em Curitiba. Horário de funcionamento: de segunda a sexta-feira, das 10 às 20h. Sábados e domingos, das
9 às 13h. Entrada: Franca