Pela primeira vez trabalhando juntos, a atriz Regina Braga e o diretor José Possi Neto, estréiam hoje, nacionalmente, o monólogo "Um Porto Para Elizabeth Bishop", na programação do 10º Festival de Teatro de Curitiba, às 21h30, e amanhã e domingo, às 20 horas, no Guairinha. Para Regina este também é o primeiro monólogo de sua carreira de atriz.
Formado na primeira turma da ECA (1970), Possi Neto conta que conheceu Regina nessa época, quando ela ganhou o prêmio de Atriz Revelação, da Associação Paulista de Críticos de Arte.
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Depois disso, Possi viveu na Bahia e em Nova York, ficando fora nove anos. Na volta instalou-se em São Paulo. Foi quando Regina começou a ter contato com os trabalhos dele em teatro-dança. "Esse trabalho, que não é exatamante teatro-dança, é uma peça biográfica. É uma adaptação de uma série de informações inspiradas nas cartas da Elizabeth para amigos, na época em que viveu no Brasil, na década de 50 e 60. Como uma grande escritora, as cartas são geniais, com coisas muito engraçadas".
Com mais de 70 espetáculos dirigidos, nos 23 anos de carreira, Possi Neto, conta que tem identidade em trabalhar com peças de literatura adaptadas para o teatro. "Essa peça é uma adaptação livre e realista, que leva em conta a memória emocional da autora. É quase um raio-x dessas recordações", conta. adiantado que o espetáculo começa com Bishop chegando ao Porto de Santos e termina com ela no Porto de Boston, no final da vida, recordando-se do Brasil, revisitando o passado.
Em função disso, o espetáculo tem a mesma dinâmica da memória. "A gente lembra de um assunto, pula alguns anos, vai e volta no tempo. Foi assim que a jornalista Martha Góes construiu o texto e explorou os momentos mais fortes da peça e, portanto, da vida dessa poeta que foi considerada uma das melhores que os Estados Unidos já tiveram", esclarece.
Essa forma, não-linear ou cronológica, é o ponto mais excitante da peça "Um Porto Para Elizabeth Bishop", na opinião do diretor. Para Regina Braga, esse é um dos trabalhos mais difíceis que já assumiu. "Além de ser meu primeiro monólogo, a falta de linearidade exige um esforço extra e intenso", reconhece.
Elizabeth e sua companheira Lota Macedo Soares fazem Regina pular de uma situação de extrema alegria para outra de profunda depressão. "É um exercício de interpretação a cada segundo, que tem exigido muita concentração. Por isso, é um trabalho fascinante". Regina conta que nem tem pensado em outros trabalhos, apesar de estar recebendo convites.
Bishop chega ao Brasil assustada com as nossas coisas, resmungona e de repente cai apaixonada pelo povo, que tem uma liberdade inusitada para ela, e com a natureza exuberante. "Ela compara a disciplina americana com o nosso jeito de viver e diz que aqui existe um enorme choque amoroso. Isso resume bem as observações de Bishop sobre o nosso País", afirma Regina. "Foi esse País que ajudou-a a sobreviver".
Revolucionárias, com extrema naturalidade, Bishop e Lota, viveram como um casal, num ambiente cultural de altíssimo nível e entre objetos e pessoas interessantímas.
A arquiteta Lota foi a responsável pelo projeto do Parque do Flamengo e em. função disso, viveu intensamente o Rio de Jeneiro, com seus políticos, problemas e dificuldades. Lota pagou com a vida esse projeto, uma vez que acabou suicidando-se.
Lota e Bishop foram dois ícones da liberação feminina e só são conhecidas no Brasil, há três anos quando seus livros foram relançados. "Eu mesma não conhecia Elizabeth Bishop e depois de ler seus poemas fiquei pensando como conseguira sobreviver sem tê-la conhecido", finaliza Regina Braga. Ela conta que está lendo Bishop por curiosidade, sem a intenção de ser uma especialista na poeta. A pesquisa foi feita pela autora da peça, Martha Góes.
"Naquela época os escândalos eram por motivos criativos e não por comportamento. Essa é a grande sacada do texto e permeia todo o espetáculo. Foi quando o Brasil ficou moderno. Isso nos surpreende e encanta", exclama Regina Braga.
Serviço: Estréia da peça "Um Porto Para Elizabeth Bishop", no 10º Festival de Teatro de Curitiba, hoje, às 21h30, amanhã e domingo, às 20 horas, no Guairinha (Rua XV de Novembro s/nº). Ingressos a R$ 20,00.