O surrelismo de ponta a ponta, a loucura, o medo da morte e de gafanhotos, a musa, santa e mulher Gala, o fanatismo, o narcisismo, o egocêntrico, a eloquência, a insegurança, a timidez e finalmente a genialidade da vida e da obra do pintor espanhol Salvador Dalí ganham movimentos na coreografia de Luciana Lara, que apresentam nesta quinta e sexta-feira, às 21 horas, os bailarinos da A.S.Q. Cia de Dança, de Brasília, no Teatro Guaíra.
Cenas de liberdade, como sonharam e ainda sonham os surrealistas, são apresentadas em imagens e dança. O espetáculo não tem uma ordem narrativa biográfica, mas pode ser dividido em três temas que se inter-relacionam: a vida e a personalidade excêntrica de Dalí, a obra surrealista e o inconsciente.
Para falar do gênio de bigodes longilíneos, a companhia faz um retrato da caricatura que o próprio Dalí criou dele mesmo. O fanático e polêmico catalão é revelado em suas contradições atrás do seu bigodão como um homem tímido, que tinha horror à morte e vergonha do próprio corpo.
A manifestação simbólica, muitas vezes indecifrável, do inconsciente nos sonhos inspirou a coordenação das justaposições das imagens criadas com o cenário, os elementos de cena, figurinos e movimentação. A utopia do surrealismo de querer libertar a imaginação e o inconsciente de qualquer escravatura racional, moral, estética, psicológica e cultural é perseguida nesse espetáculo, que busca a força da imagem sem explicações racionais.
A pesquisa de movimento e encenação buscou elementos na comédia Dell’arte italiana, na dança-teatro do expressionismo alemão, no butoh (dança das trevas japonesas), na dança flamenca e no improviso baseado nas técnicas surrealistas do automatismo psíquico do poeta André Breton e do método paranóico crítico deliniano.
O ponto de partida para o cenário, idealizado por Luciana Lara e Marconi Valadares, são as paisagens das telas de Dalí. Os objetos de cena foram confeccionados por Andrey Hermuche, que dá vida ao famoso bigode e grandes asas aos sonhos surreais. A figurinista Maria Carmen veste os bailarinos com a imagem do pintor, abusando dos termos dalinianos com o propósito de causar a estranha sensação do surrealismo.
A trilha sonora composta por Claúdio Vinícius, com participação do violoncelista Ocelo Mendonça, inspirou-se nas touradas e no amor romântico de Dalí e Gala. As músicas misturam-se às frases bombásticas do pintor e aos sons dos bailarinos. Revira o manifesto surrealista e faz uma colagem dos longos e intrigantes nomes dos quadros de Dalí, em ritmo de repente nordestino (considerada a manifestação popular mais surreal do Brasil). Essa trilha rendeu um CD que foi lançado na estréia do espetáculo em junho de 2000, em Brasília.
Dalí, espetáculo com a A.S.Q. Companhia de Dança – Brasília DF –, hoje e amanhã, às 21 horas, no Guairão. Ingressos a R$ 20,00 e R$ 10,00. Espetáculo recomendado para pessoas acima de 12 anos.