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A persistência da memória

Francelino França - Folha de Londrina
23 mar 2001 às 08:27

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Um armário quando aberto pode ser revelador. Principalmente, se ele abriga a memória afetiva de um avô, conhecido por informações esparsas perdidas no tempo. Os irmãos-diretores Adriano e Fernando Guimarães, de Brasília, receberam de herança da avó Maria um armário em que objetos pertencentes ao avô, Genserico, estavam acondicionados por mais de 50 anos. Uma pessoa desconhecida emergiu com as lembranças pessoais: fotos, santinhos e cartas de amor. A memória emblemática do avô redescoberto foi o ponto de partida para o projeto "Felizes para Sempre", que faz sua estréia hoje no Festival de Teatro de Curitiba. O projeto passou pelo Rio de Janeiro e Brasília (no Centro Cultural Banco do Brasil) e depois de Curitiba e segue para São Paulo.

Sobre esse desdobramento da figura do avô, o diretor Fernando Guimarães se questiona: "qual dessas vidas é a mais verdadeira?". A idéia é reconstruir uma existência através de objetos deixados por uma pessoa. Foram inseridos objetos de outros integrantes do elenco de "Felizes Para Sempre", resultando num híbrido entre ficção e realidade.

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Com essa ligação intrínseca com o tempo, os Guimarães amalgamaram textos do irlandês Samuel Beckett - Dias Felizes; Jogo; Ir e Vir - e promoveram uma instalação com armários hospitalares, alguns recheados de fotos. Na estréia, no FTC, "Dias Felizes" conta com a participação da atriz Vera Holtz, que abraçou o projeto com bastante entusiasmo. Em cada cidade, um novo espaço é totalmente criado. Em Curitiba, o projeto "Felizes Para Sempre" tem apresentação no Solar do Barão, edificação tombada pelo patrimônio histórico.


A simbiose entre teatro e artes plásticas tem início quando o público adentra no Solar do Barão e é fotografado, para se integrar ao cenário. Depois, conhece a instalação e assiste a uma performance. O itinerário deságua na densidade dramatúrgica de Samuel Beckett. A idéia é experimentar as possibilidades das diversas linguagens operadas em conjunto. O autor irlandês instaura a memória em três situações distintas, sempre com o recurso da repetição, para enfatizar a relatividade do tempo.

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Em "Dias Felizes", Winnie tagarela solitariamente enquanto vai sendo sugada num deserto de areia. O dia vai sendo preenchido com a ação de objetos entre a campainha de acordar e dormir. Beckett - Prêmio Nobel de Literatura de 1969 - reduz a peça e a representação aos seus elementos mínimos, ultrapassando aquele ponto em que o diálogo transforma-se em monólogo e a ação em inação. No giló diário da solidão, Winnie/Holtz sabe que tem nas redondezas o marido, seu tesouro particular (uma bolsa) e a própria voz, ecoando um universo nostálgico de palavras, palavras, palavras.


No "gabinete de curiosidades" de Adriano e Fernando Guimarães, presente no projeto, é uma instalação com diferentes objetos em que o público poderá apenas vê-los, ou espiá-los como segredos e até vesti-los como uma roupa. Os diretores desenvolvem uma proposta de contaminação entre as linguagens teatral e plástica e trazem no currículo montagens como "Vestido de Noiva", "Dorotéia", "Macbeth". Em 1996, receberam o Prêmio Shell de melhor direção.

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Serviço: "Felizes Para Sempre", criação coletiva e texto de Samuel Beckett. Direção de Adriano e Fernando Guimarães. Elenco: Alessandro Brandão, Catarina Accioly, Cleani Marques, Dora Wainer, Miriam Virna e William Ferreira. Na peça "Dias Felizes" conta com a participação de Vera Holtz.


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