Ser filha de Cícero Dias é um privilégio para Sylvia. Ter convivido com as artes desde o nascimento em Paris, ser afilhada de Pablo Picasso talvez explique de onde vem a inspiração, a coragem e a ousadia de pintar. Sylvia está pela primeira vez em Curitiba, onde expõe na Simões de Assis Galeria de Arte, de hoje ao dia 30 de dezembro.
Ela traz 30 quadros em dimensões e temas diversos. "Minha pintura não é nem clássica nem acadêmica. Na verdade nunca estudei artes plásticas. Fiz Ciências Políticas. Mas sempre convivi com as artes, por causa do trabalho do meu pai", conta em português claro com leve sotaque francês.
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Avessa a falar sobre o próprio trabalho, Sylvia prefere que o público sinta e interprete sua arte. "Realmente meu trabalho é muito pessoal. No começo há uma inspiração do surrealismo, mas não é surrealismo porque não faço parte dessa escola. Prefiro dizer que minha pintura emerge do subconsciente ou dos sonhos".
A pintura levou um tempo para aflorar das mãos de Sylvia. "Só mesmo depois de ter casado e ido morar longe, no Panamá, nos anos 70, foi que pude romper com o medo de pintar, de ser comparada a meu pai. Vivendo em Paris, eu não teria ousado, mas longe e me sentindo isolada, pude cortar o cordão umbilical e pegar nos pincéis".
Ela conta que de repente sentiu uma imensa vontade de pintar. "Eu era muito jovem, recém-casada, e estava morando longe da minha família, da cidade onde nasci. Tive, durante muitos anos, uma vida de cigana, como a dos diplomatas. Se não fosse pelo meu ex-marido me incentivar, acho que nunca teria tido a audácia de expor", confessa. Sylvia se diz muito crítica com relação ao seu trabalho. "Raramente me animo a mostrar minha pintura. Mas as pessoas me convencem do contrário".
Todo esse espírito crítico tem um lado lúdico e de humor que aparece nos quadros de Sylvia. Ela tem uma série de cadeiras, em pinturas urbanas, em que há sempre um personagem rondando as telas. "Essa é a fase urbana da minha pintura. Em Paris não poderia ser de outra maneira. Interpreto os personagens como pessoas que atravessam a nossa vida". Sempre correndo em alguma direção, os personagens aparecem como molduras ou legendas.
Inspirada em Matisse, Sylvia prefere as cores puras, como o azul, o verde e o vermelho. Além da série das cadeiras, a artista plástica traz um conjunto de obras com casais ou pessoas em comtemplação. Outros quadros mostram muito verde e azul, com folhagens delicadas e uma sutil presença humana. "Como grande admiradora de Matisse, procuro as cores puras e o preto como uma cor de luz, como ele próprio definia".
As cores do verão também merecem referência nos quadros dessa francesa que tem raízes na iluminada cidade do Recife, onde seu pai nasceu. "Evoco o verão. A estação que sempre inspirou os pintores que saíram da escura Paris para viver na Côte D"Azur".
Além do Panamá, Sylvia viveu no Brasil, na Coréia e no Japão. Essas culturas tão diversas tiveram papel relevante na sua pintura. "Inicialmente a vegetação dos trópicos me fascinou. Pintei muito inspirada pela densidade dos verdes das matas panamenhas e brasileiras. Na Ásia absorvi a suavidade dos tons orientais. De volta a Paris, a minha paleta mudou e a minha pintura tornou-se mais urbana".
Serviço: Exposição de Sylvia Dias, hoje às 20 horas, na Simões de Assis Galeria de Arte, à Alameda Dom Pedro II, 155 telefone: 232-2315. A mostra permanece até o dia 30 de dezembro, de segunda a sexta-feira, das 10h às 19 horas e sábado, das 10h às 13 horas.