Todo mundo sabe que o Homem-Morcego limpa as ruas de Gotham enquanto o resto dos mortais assiste à Netflix. Mas como um reles humano sem o DNA de Krypton consegue gerenciar as empresas Wayne, liderar a Liga da Justiça e socar palhaços psicopatas sem desmaiar de exaustão? O Batman dorme, efetivamente? Quando, como e quando ele faz isso?
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A pergunta atormenta a DC Comics há décadas. Cinema e quadrinhos cansaram de mostrar Bruce Wayne voltando para a mansão ao amanhecer e desabando na cama com o uniforme e tudo. No clássico filme de Tim Burton, em 1989, ele chegava a dormir de ponta-cabeça, igual a um morcego. Convenhamos: nada verossímil para quem precisa manter o físico de atleta e ainda bater ponto como empresário.
A preocupação com o realismo bateu forte nos anos 2000, e vimos isso no set de Batman Begins. Christopher Nolan tentou dar um jeito nisso mostrando o bilionário acordando às 15h com uma vitamina do Alfred na mão para tentar sobreviver à rotina.
O truque do microssono
Como o Batman exige histórias mais "pé no chão", o genial e psicodélico roteirista Grant Morrison, ao lado do desenhista Lee Garbett, encontrou uma saída científica em Batman #682, publicado em 2009. Eles introduziram o conceito do microssono.
Na trama, Alfred aparece preocupado com a saúde do patrão, e Bruce simplesmente "ativa" o modo microssono para fugir do sermão. Ele treinou sua mente para disparar esses cochilos esporádicos de segundos ou minutos ao longo do dia, até de olhos abertos, dando a impressão de que ainda está acordado.
No papel e nos gibis é lindo, mas a ciência de verdade estraga a brincadeira dos DCenautas. A Sleep Foundation, organização que fornece informações de saúde sobre higiene do sono, distúrbios do sono e avaliações de produtos relacionados ao sono, observa que o microssono real não é um superpoder que você programa para funcionar enquanto estuda ou trabalha. Ele é um sintoma perigoso de privação de sono crônica ou de distúrbios graves, como a apneia.
Quando você entra em microssono na vida real — geralmente em tarefas monótonas como dirigir numa estrada vazia —, seu cérebro está operando no limite absoluto da pane de sistema. As ondas cerebrais diminuem visivelmente no eletroencefalograma e, se você insistir em ignorar o colchão, a conta chega a galope: imunidade baixa, ganho de peso, problemas cardíacos, além de um belo convite para alucinações, ansiedade e depressão.
O limite da sanidade
A própria DC cansou de fingir que a mente do Batman é uma máquina perfeita e inabalável. Recentemente, o arco de terror Knight Terrors provou que os danos mentais acumulados de b chegaram a um nível alarmante.
Tudo começa em Knight Terrors: First Blood #1, publicado em 2023, em que o vilão Insônia joga quase todo o Universo DC em um sono profundo e não natural. Batman vira alvo e o herói fantasma Deadman é obrigado a possuir o corpo de Bruce para protegê-lo de forças astrais perigosas.
A virada de chave acontece em Knight Terrors: Batman #1. Teoricamente, o treinamento mental de Bruce permitiria que ele ficasse consciente mesmo sob ataque psíquico e retomasse o controle. Mas, com o Deadman ocupando seu corpo, ele fica completamente neutralizado e trancado em seus próprios pesadelos.
Esse evento serve como o ápice de uma tendência que os roteiristas vêm desenhando nos últimos anos: a mente do Batman está rachando. Ele passou décadas transitando pelos cérebros malignos dos piores psicopatas e assassinos de Gotham, além de carregar o trauma eterno da morte dos pais.
Depois disso, Bruce passou por meses de problemas psicológicos, inclusive o domínio de uma segunda persona instável em sua mente. E, depois de vários arcos em que ele precisou lidar com esse assunto, a DC conseguiu encontrar algumas soluções para revitalizar seu corpo e mente, de forma que a questão das poucas horas de sono ficaram dormentes novamente — com o perdão do trocadilho.
Contudo, até hoje, ainda não há uma resposta verossímil e satisfatória para explicar realmente como Bruce Wayne repousa o suficiente para atuar como Batman por tanto tempo sem o mínimo de horas de sono — ou de microssonos.