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Bastidores do Tihany: Histórias por trás das cortinas

Mariana Polli – Redação Bonde
29 jun 2014 às 15:18

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Mariana Polli
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Há quase dois meses, as cortinas do circo Tihany se abrem em Londrina para um público que deseja ver um espetáculo acontecer diante dos olhos. Quando elas se fecham ao final do show, a movimentação continua nos bastidores. Artistas e equipe técnica vivem o circo. Viajam o mundo com a trupe para levar o melhor que sabem fazer ao respeitável público. O Bonde pôde acompanhar um pouco do que acontece atrás das cortinas e conheceu histórias de quem trabalha para manter a máxima de que ‘o show não pode parar’.

Uma hora antes do show, artistas ensaiavam no palco o que seria apresentado logo em seguida.

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Confira um trecho do ensaio da artista que treinava o número com a lira:



No camarim do palhaço, Henry Ayala Júnior já se preparava para entrar no palco. Enquanto se maquiava, o ‘Príncipe dos Palhaços’ como gosta de ser chamado, contou que a arte circense corre nas veias. Ele é a quinta geração de palhaços de sua família. Cresceu no circo viajando o mundo e aprendeu também a arte das acrobacias.


O venezuelano faz o público rir sem falar nenhuma palavra durante todo o espetáculo. A inspiração veio de Charlin Chaplin e Buster Keaton. "Aprendi muito com eles, mas tenho que fazer diferente porque eles são únicos", afirmou enquanto passava a maquiagem branca em seu rosto.


Entre acrobacias e palhaçadas, nota-se um apreço especial pela segunda área de atuação. "Para mim, não é nenhum trabalho, é uma forma de vida, um prazer. Eu preciso atuar todos os dias para ficar bem comigo mesmo. Acho que é uma função muito linda trazer alegria para as pessoas. Enquanto elas estão lá, esquecem dos problemas e entram nesse mundo de fantasia", disse o palhaço, que atua em diversos momentos durante o espetáculo.


Enquanto traçava caracóis e linhas abstratas em seu rosto, Ayala Júnior explicou que cada palhaço tem sua forma de maquiar. Segundo ele, o objetivo dos traços é ressaltar as expressões faciais do artista. Por isso, ele aprendeu sozinho o desenho que melhor o ajuda durante a atuação.


Sobre Londrina, o Príncipe dos Palhaços disse que estranhou a temperatura dos últimos meses e brincou: "a cidade é fria, mas as pessoas daqui são calorosas".



A diversidade do balé


Logo ao lado, fica o camarim das bailarinas do espetáculo. Lá estavam 14 dançarinas de diferentes nacionalidades, como Inglaterra, Austrália, Nova Zelândia, Rússia, Colômbia e Brasil. Por isso, naquela sala era possível ouvir uma diversidade de idiomas.


A colombiana Fernanda Cardona trabalha há três anos no Tihany. Ela não mora no circo, assim como a maioria dos integrantes. Viaja com a trupe e fica hospedada num hotel da cidade. Chega sempre uma hora antes do show para a maquiagem e o penteado, que ficam ao encargo de cada dançarina. Com cores fortes, ela explicou que a maquiagem precisa ser carregada por conta das luzes do picadeiro.


Fernanda também destacou a satisfação pessoal que seu trabalho a proporciona. "Eu adoro trabalhar no circo e ver as reações do público durante a apresentação. Quando a gente ama o que faz, acho que o público sente. Por isso eu tento dar o meu melhor no palco", disse a colombiana, formada em balé clássico.


No meio das estrangeiras estava a brasileira Aryelle Souza de Freitas. Nascida em Natal, ela tem 22 anos e trabalha há dois anos e meio no Tihany. Antes do picadeiro, trabalhava dando aulas de dança.


Convidada por uma amiga foi fazer um ‘bico’ como auxiliar de recepção no circo. Ela recebia os ingressos das pessoas e ajudava a acomodá-las nas cadeiras marcadas. "Quando eu vi o balé, tive a certeza que meu lugar era no palco. Falei com a minha chefe e contei que era bailarina. Fiz um teste no mesmo dia e fui contratada", contou a jovem, que já viajou o Brasil de norte a sul com a trupe.


Aryelle troca de roupa 12 vezes durante o show. Até se acostumar com a rapidez exigida nas trocas, ela precisou de ajuda das parceiras. "Às vezes, não dava tempo de trocar tudo e aparecia no palco sem uma pulseira ou outro acessório. Torcia para o público não perceber", relembrou, bem-humorada.



Agulhas, linhas e lantejoulas
Para manter o figurino de todos os integrantes em ótimo estado, existe o galpão das costureiras, logo ao lado do camarim das dançarinas. A brasileira Sandra Regina Garcia está entre elas. De Divinópolis, Minas Gerais, ela viaja o mundo com a equipe há 11 anos.


"Faço a manutenção das roupas usadas no espetáculo. As pedras perdem o brilho e a gente precisa trocar sempre. Todos os dias tem trabalho a fazer. Quando não estou fazendo roupas novas, estou recuperando o que já está em uso. Eu tenho prazer de fazer o que eu faço", relatou a costureira. Ela ressaltou que o figurino recebe todos esses cuidados, por ser fundamental na composição dos números artísticos.


No Tihany, ela vive em família. O marido é Romano Garcia, ilusionista que reveza com Richard Massone no espetáculo. O casal tem uma filha dançarina e um filho de 14 anos que estuda e, nas horas vagas, treina acrobacias. "Gosto muito do circo e aqui continuamos unidos em família", completou Sandra enquanto bordava uma peça.


Artistas atletas


Para cuidar do preparo físico dos artistas e tratar eventuais lesões, a fisioterapeuta Aline Ueda é funcionária fixa do circo. Ela faz atendimentos no hotel onde eles ficam hospedados e também em uma sala atrás do palco do circo.


"As contorcionistas costumam sentir dores, por isso precisam alongar muito, aquecer e serem acompanhadas. Procuramos orientar procedimentos para evitar lesões e a sobrecarga das articulações dos atletas", disse a paulista. Ela acrescentou que também trata as costureiras, o pessoal da equipe técnica, os caminhoneiros e os outros funcionários do circo.


O acrobata carioca Bruno Souza dos Santos, 27 anos, estava ao lado da sala da fisioterapia e aquecia para entrar no palco em instantes. Ele atua no primeiro número, a Hamaca Russa, e também em outros momentos durante o show. Disse que queria ser ginasta quando criança, por isso entrou para circo no Rio para aprender acrobacias e acabou ficando nesta área, há um ano e meio.


Questionado sobre os riscos da profissão, ele disse que o ‘frio na barriga’ é necessário e confiança demais atrapalha. "Medo eu não tenho, mas preciso manter o respeito pelo número e realizá-lo com cautela", disse e logo se despediu para aparecer do outro lado da cortina, onde os espectadores já aguardavam o início do show.


Ashalley sorridente


Num cantinho da sala da fisioterapia, estava Ashaley Ktharina Vanessa Delgado, de 11 anos, fazendo a tarefa da escola, enquanto do outro lado das cortinas o show começava. A menina simpática contou que é colombiana. A mãe é dançarina do Tihany e o pai chileno hoje trabalha como diretor de acrobacias de outro circo nos Estados Unidos. A menina que quer ser atriz disse e não pretende deixar os estudos de lado.


"Viajo com a minha mãe durante o ano e a minha maior preocupação é estudar. A cada cidade nova, a gente procura uma escola e eu estudo de seis semanas a dois meses. Às vezes, é triste porque eu faço amigos e quando me acostumo preciso mudar novamente. Mas, por outro lado, é bom porque faço amigos por onde eu passo", relatou a garotinha entre cadernos e o som dos microfones do outro lado da cortina anunciando o início do show.


A menina, que fala quatro línguas, também disse que a sua segunda vontade é ser médica pediatra quando adulta, ou dançarina. Por isso, além de estudar, ela tem aulas de balé no próprio circo algumas vezes na semana.


A avó de Ashaley também trabalha no circo, produzindo as rosquinhas doces da bomboniere. Uma prima dela também trabalha na administração do circo. Quando chegam as férias, a garotinha vai para casa, que fica em Las Vegas, nos EUA.


Já passa das dez horas, o público aplaude do outro lado da cortina e as luzes se apagam. Ashaley terminou a lição de casa e vai para a cama sonhando também com outra tarefa: a de manter viva a tradição artística da família.

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Serviço: O circo Tihany segue em Londrina até o final da Copa do Mundo, dia 13 de julho.


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