No primeiro crédito ao final de ''Van Helsing'', o roteirista-diretor Stephen Sommers dedica o filme ao pai. Não diz o porquê, mas provável que o garotinho Sommers tenha sido iniciado no saudável universo do fantástico pelas mãos paternas.
E isto seria um agradecimento e esta teoria saudável. A outra, bem, a outra, se o espectador pensar no tamanho da extravagância ficcional, visual e sonora que acabou de presenciar, é de que papai Sommers trancava o filhote todos os dias num quarto escuro, dizendo ao garoto que atrás da porta estava Drácula, embaixo da cama Frankenstein e no armário o Lobisomem, sem esquecer da Múmia, grudada no teto a propósito, os recentes ''A Múmia'' e ''O Retorno da Múmia'' são assinados pelo próprio. E todos esses filmes seriam uma espécie de vingança.
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Não há nada de novo nesta monstruosa miscelânea proposta por Sommers. Já nos anos 1930, e também nos 40, quando vampiros, lobisomens e outros pesadelos eram marca inconfundível da Universal, seres da noite como Drácula, Frankenstein e Lobisomem com frequência partiam para animadas vias de fato entre si, propiciando uma série de sequelas de qualidade aquém de duvidosa.
Agora, a um custo estimado de US$ 170 milhões, eles estão novamente reunidos em ''Van Helsing, Caçador de Monstros'', estreando em Londrina simultaneamente com as principais capitais e cidades de Estados Unidos e Europa.
Aqui, Abraham van Helsing, que já foi Peter Cushing no ciclo da Hammer Films, anos 1950 e 60, Laurence Olivier na década de 1980 e Anthony Hopkins no ''Drácula de Coppola'', década passada, reaparece rejuvenecido e galã trash na pele de Hugh Jackman.
Ele é o representante de uma certa ordem com sede nos subterrâneos do Vaticano, por volta de fins do século 19. Uma espécie de 007 que combate as trevas e seus demoníacos habitantes há na abertura do filme, a caçada a um hilário Mr. Hyde já dá o tom e a dimensão do clima fantástico que percorre os 132 minutos do filme, sem oferecer nenhum descanso para a platéia.
A próxima missão é tentar salvar os dois últimos descendentes de uma família da Transilvânia, os irmãos Anna (Kate Becksinsale, quase uma especialista) e Velkan, ameaçados por Drácula, que por sua vez utiliza lobisomens para tentar capturar o monstro de Frankenstein.
Impossível uma súmula dos fatos, mas pode-se adiantar que Jackman, mordido por um lobisomem, demonstra habilidades afinal, o veterano Wolverine não nega as origens.
De transgressão em transgressão, Stephen Sommers vai extrapolando os códigos do gênero e alcançando o topo do inimaginável, coadjuvado por aquela bateria de efeitos que fregueses assíduos já conhecem o filme, na verdade, é um enorme comercial do Dolby Surround System.
E como o vizinho de porta Quentin Tarantino, mas sem o talento para remexer nas origens, Sommers adiciona um pouco de tudo ao seu laboratório de experiências sinistras. Escolham: Indiana Jones, Matrix, Dráculas , Frankensteins e Lobisomens diversos, até aquele velho e divertidíssimo baile de ''A Dança dos Vampiros'' é citado (e o ator que faz Drácula, Richard Roxburgh, é o próprio Roman Polanski 20 anos mais moço).
Deliberadamente desmedido, ''Van Helsing'' é um show de artifícios barrocos animação, computação, maquiagem que, como sempre, ajudam o espectador a achar a realidade fora do cinema não tão assustadora assim.