Teria sido mesmo uma pena se os produtores da série Harry Potter não tivessem se preocupado com o devido acompanhamento dos três principais personagens envolvidos nas tramas criadas por J.K. Rowling. Mas como a mágica financista está por trás de tudo, as chances de equívoco envolvendo o milionário futuro da grife HP eram muito remotas, embora possíveis.
Assim, as duas últimas faturas, ''O Prisioneiro de Azkaban'' e este ''O Cálice de Fogo'', que chega às telas brasileiras como aquecimento visando às férias, melhoraram o receituário do caldeirão de poções, recompensando com sobras os frequentadores de Hogwarts - na tela e na platéia.
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Alfonso Cuarón, diretor de ''Azkaban'', já tinha demonstrado sensibilidade ao tratar Harry, Ronnie e Hermione não mais como crianças, mas como os adolescentes descritos por Rowling. Agora foi a vez de Mike Newell - primeiro diretor inglês a conduzir um dos filmes da coleção - dar sua contribuição para que este universo fosse respeitado.
Afinal já se passaram quatro anos desde a primeira versão cinematográfica da popular saga literária. Todos cresceram, personagens e intérpretes. E a complexidade própria do rito de passagem encontrou a correspondência necessária no lado mais escuro das tramas.
O tempo está passando para os ex-pequenos magos, para o elenco e também para o público. Era inevitável que houvesse então mudanças de interesses, de buscas, de necessidades, de desejos e frustrações.
Não é definitivamente um filme sobre crianças. O território agora é o da mais complexa e misteriosa adolescência. Com sua carga de torpeza, seu anseio pela identidade, suas invejas e pequenas misérias. Com a inexorabilidade da morte. E obviamente com o despertar da sexualidade.
Não por acaso é o primeiro da série a receber a qualificação ''recomendável para maiores de 12 anos''. Mas não se assustem com isto e com o tom mais obscuro da trama. Há muitas façanhas em cena, muitos prodígios que não são artes deste mundo, mas do intrincado ambiente dos sortilégios e das magias.
Poderá haver queixas e reclamações dos leitores mais inflexíveis, mas a adaptação do habitual roteirista Steven Kloves é mais uma vez econômica na condensação. Mas ele tem razão, afinal são quase 700 páginas, e é preciso deixar tudo muito ágil e portanto consumível.
O importante é que o essencial está garantido. O grande torneio mundial de Quadribol foi mantido com um punhado de sequências espetaculares; há batalhas aéreas contra dragões de tirar o fôlego, lutas mortais envolvendo criaturas submarinas e peripécias eletrizantes em labirintos encantados.
E há o fantástico e arriscado Torneio Tribruxo do qual Harry acaba participando, embora com idade inferior à permitida. Tudo, claro, sustentando pelas últimas sofisticações computadorizadas inventadas pela Industrial Light and Magic.
Mike Newell (''Quatro Casamentos e Um Funeral'') se ocupa com elegância visual e fluidez narrativa tanto do faz de conta de magias & bruxarias quanto dos problemas pessoais dos personagens de carne e osso.
E quando o filme ameaça ficar um tanto monótono e previsível, surge em cena, pela primeira vez em corpo e alma, o malévolo Lord Voldemort. Na pele de Ralph Fiennes, o vilão levanta o tônus do filme e passa a dominar a cena. Ambos, Harry e Voldemort, são rivais também em carisma.