Embora em espaço improvável, mas nem por isto impossível, estréia com atraso em Londrina um dos títulos importantes lançados no Brasil em 2005, a alegoria ''Manderlay'', segunda parte da trilogia crítico-exploratória que o diretor dinamarquês Lars Von Trier vem dedicando aos Estados Unidos.
Iniciada há quatro anos com ''Dogville'', a viagem de von Trier à América profunda chega agora a uma fazenda de cultivo de algodão na década de 1930, habitada por uma comunidade de trabalhadores negros ainda escravizados apesar da abolição, há mais de meio século.
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A história retoma a protagonista de ''Dogville'', Grace, desta vez interpretada por Bryce Dallas Howard no lugar de Nicole Kidman. O filme começa no ponto em que terminou a primeira parte. Voltando de Dogville, a quadrilha de gangsters chefiada pelo pai de Grace (Willem Dafoe substituindo James Caan) pára para descansar numa plantação de algodão do Alabama, no chamado ''deep South''.
A bondosa e justa Grace (uma espécie de alter ego do próprio espectador bem intencionado), fiel a seus princípios liberais e contra a vontade do pai, decide impor à força um sistema democrático e ensinar aos escravos as vantagens da liberdade e do voto. Mas a liberdade se converte em dogma e a eleição em práxis. A soma das vontades é onipotente até para decidir sobre a vida de todos, chegando-se à opressão da e pela democracia.
O que ela ignora é que a igualdade é impossível neste tipo de sociedade, e que o oprimido talvez não queira mudar. O submetido está contente em sua prisão, e a ditadura do branco tem seus benefícios sobre o negro; que a opressão não é isolada mas múltipla, e que entre o escravo do capital e o escravo da gleba há diferença quase invisível, já que ambos designam a quem domina sua vontade.
O idealismo de Grace é afinal contestado pela comunidade. O sábio cinismo do líder negro (Danny Glover) demonstra que eles mesmos escreveram sua lei retrógrada e injusta, mas à medida deles. Não há igualdade entre desiguais, por isso é preciso estabelecer uma determinada exigência moral. E alguns direitos.
''Manderlay'' prossegue na rota brechtiana e retoma o roteiro metafórico, ambos componentes essenciais de ''Dogville''. A cenografia é teatral, como sempre sóbria, franciscana, despojada ao extremo, para não dizer ausente.
Entre as poucas novidades formais, a limpa horizontalidade de ''Dogville'' foi aqui substituída pela montagem um pouco mais complexa a partir das alturas, com a habitual câmera preciosista de von Trier (operada pelo próprio e paradoxalmente dissidente do Dogma que ele mesmo enunciou) se elevando acima do platô para melhor definir e enquadrar o movimento coreográfico dos atores.
O discurso moralizante, até mais mordaz, segue intacto. O passado escravocrata dos Estados Unidos é apenas um dos alvos de von Trier. Em tom fabulador, ele arremete contra a hipocrisia moral, o conformismo e a ditadura do capital, esta uma forma de tirania mais sutil e não menos eficaz. Ao som de ''Young Americans'' de David Bowie, e entre fotografias carregadas de ironia, ''Manderlay'' finaliza sua pregação contra os valores decadentes da sociedade ocidental.