Estreada em pleno pico da Grande Depressão, naquele fatídico 1933 e na mesma semana em que o presidente Roosevelt ordenava o fechamento dos bancos, a versão original de ''King Kong'' logo se converteu numa espécie de cult, e por dois motivos. Era uma fascinante viagem aos domínios da aventura evasiva (o monstro na tela era aparentemente mais feio do que a crise econômica) e foi celebrado como mito instantâneo, um dos maiores e mais duradouros da história do cinema.
A partir daquele momento, o arquétipo erótico da Bela e da Fera ficaria incorporado ao inconsciente coletivo do século XX, segundo as imagens deliciosamente primárias em stop motion, fotograma a fotograma concebidas pela dupla Merian C. Cooper e Ernest B. Schoedsack.
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Sete décadas mais tarde, no mundo globalizado pós 11 de setembro, o diretor Peter Jackson, avalizado pelo êxito planetário da trilogia ''O Senhor dos Anéis'' (três bilhões de dólares, só nas bilheterias), resgatou do baú de lembranças cinéfilas de sua infância a figura monumental daquele primeiro gorila Kong, o ícone de ficção que influenciou diretamente sua decisão de um dia se tornar diretor de cinema.
Mas Jackson não atualizou a narrativa como a claudicante versão de 1976, hoje memorável apenas pela trilha de John Barry, pela sensualidade da então estreante Jéssica Lange e pela troca de fetiches - o Empire State Building pelas Torres Gêmeas, que resistiram a Kong mas não a Bin Laden.
Simultaneamente, em milhares de cinemas espalhados por todos os continentes, os espectadores colocam-se diante de um dos filmes mais espetaculares em muito tempo, acompanhando com justificada excitação o sonho colossal de Jackson agora tornado realidade. Somente no Brasil são 551 salas, o que praticamente coloca o mercado interno sob o monopólio de três únicos títulos: Kong, Harry Potter e Nárnia.
E então estamos de novo na década de 30. Em meio ao grupo social padecendo as agruras da crise está a atriz desempregada Ann Darrow (Naomi Watts). Nas ruas, enquanto tenta roubar uma maçã, a garota tem a sorte de ser abordada por Carl Denham (Jack Black), diretor de cinema sempre à caça de novos talentos. Ele oferece à moça o principal papel em seu próximo projeto, um filme de aventuras exóticas. As filmagens devem acontecer na Ilha da Caveira, lugar remoto habitado por selvagens. Toda a equipe embarca no navio ''Venture''.
A bordo, segue também o roteirista Jack Driscoll (Adrien Brody), que cai de amores pela nova estrela. Depois de uma acidentada chegada à ilha, começam as filmagens em meio à atitude estranha de seus habitantes nativos.
O resto da história segue fielmente o argumento do filme de 1933. Ann é sequestrada pelos nativos e dada em sacrifício a um deus chamado Kong, ele mesmo, o enorme gorila que, agora sim, cai de quatro pela moça e a leva para viver com ele nos confins de uma selva habitada por animais pré-históricos.
Perseguição, perigos, cativeiro da fera sob protestos da bela, traslado a Nova York como atração de feira, fuga das correntes, pânico nas ruas de Nova York, mais perseguição, cerco militar no alto do Empire State Building e afinal a tragédia.
Em termos de infografia, o público já pode ir se preparando para sentir maximizada a fórmula ''maior e mais detalhado é melhor'', uma especialidade quando se trata de Peter Jackson.
A empresa de efeitos criada por ele na Nova Zelândia, a Weta Digital, trabalhou com 3.500 terminais. Com tal volume de equipamentos (e uma consequente sofisticação), quase tudo foi gerado digitalmente, da Ilha da Caveira à réplica ultra-realista da Nova York dos anos 1930, segundo documentos de época.
E para o novo look de Kong, o diretor se baseou nas expressões e gestos do ator Andy Serkis. À primeira menção, nada de extraordinário. Mas quando se sabe que Serkis foi o modelo para a criação do Gollum na saga ''Senhor dos Anéis'', os olhares, reações e trejeitos do gorila devem ser observados com muita atenção.
''King Kong'' deverá passar à história como um relevante embora demasiadamente longo tributo ao gênero de aventuras, com sequências de fato espetaculares e entremeadas por emoções bem calibradas.
Diverte e dá seu recado ambientalista, o que não é façanha para qualquer blockbuster que lida com tal volume de recursos orçamento de U$ 205 milhões, o sexto na hierarquia dos filmes mais caros já realizados.
No elenco, Naomi Watts é a alma do filme, bela como devia ser o personagem, mas também forte, sugestiva, emotiva, sensível, inocente e arquetípica, como deviam ser as atrizes daquele período. Grita menos que a original, Fay Wray, e é (bem) menos sensual que Jessica Lange.
Aliás, aquele elemento erótico puro presente em 33 e 76 praticamente não comparece nesta versão. O mistério, a pulsão, o inconsciente liberado, o ''amour fou'', tudo foi trocado aqui por um bem comportado entardecer, com o casal olho no olho como dois noivos.