O norte-americano Terry Gilliam é um cineasta para quem a alegria do cinema está mais na viagem do que no destino. E isto, via de regra, funciona não só para ele, mas também para seu espectador fiel, habituado a compartilhar as sutis fantasmagorias de suas criações e uma universalidade que se confunde com coloridas, vistosas idiossincrasias - e quem se lembra de ''Os Aventureiros do Tempo'', ''Brazil, o Filme'', ''As Aventuras do Barão de Munchausen'', ''O Pescador de Ilusões'', ''Os Doze Macacos'' e ''Medo e Delírio'' sabe exatamente o que isto quer dizer.
Assim, o mundo a um só tempo fantasioso e terrorífico dos contos supostamente infantis dos irmãos Grimm parecia a priori material sob medida para a personalidade desmesurada e barroca de Gilliam, de resto o mais talentoso entre os integrantes do iconoclasta grupo Monty Python.
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Algo assim como se os famosos irmãos fabulistas tivessem escrito já com o rigoroso pressentimento de que, quase dois séculos mais tarde, aquele ilimitado universo de seres e narrativas extraordinários cairia na teia da imaginação de um cineasta fascinado pelos excessos visuais.
Mas o cinema neste caso por desgraça, mas habitualmente por sorte está longe de ser ciência exata. Por uma série de razões de difícil explicação, o filme de Gilliam se parece com alguma coisa assim como uma aplicada colcha feita de retalhos, imagens e ecos literais daquele universo. Mas fica a considerável distância de ser a obra brilhante e incontestável que cabia esperar.
Os dois principais personagens que emergem de ''Os Irmãos Grimm'' parecem de fato com seres saídos de seus próprios textos. Eles se movem entre a realidade e a ficção, num universo paralelo repleto de referências e flertes culturais de procedências variadas.
Ehren Kruger, hoje reconhecido roteirista especializado em terror pós-moderno (''Pânico'', os dois ''O Chamado'') o que nem de longe constitui credencial confiável , assina sozinho o roteiro de ''Brothers Grimm''. Não se deu lá muito bem.
No final do século 18, na Alemanha cativa do poderio de Napoleão, a fraterna e contrastante dupla do título, o cínico aventureiro Willhelm Grimm (Matt Damon) e o recatado ex-professor Jacob Grimm (Heath Ledger), segue de aldeia em aldeia explorando a crendice dos habitantes a sequência de abertura é memorável.
Mediante bom dinheiro, os dois fantasmas e feiticeiras que eles mesmo criam em quadrilha organizada. Mas são pegos por um implacável general francês (Jonathan Pryce) e obrigados a encarar uma floresta encantada de verdade, com mitos, magia negra, bruxa e tudo mais (Mônica Bellucci é a amaldiçoada Rainha do Espelho, em poucos mas arrebatadores minutos em cena).
Gilliam dá ainda mais asas ao roteiro de Kruger, fortalecendo um relato a meio caminho entre a realidade biográfica dos autores e o transbordante espaço paralelo de sua própria imaginação, sem definir e isto é premeditado a fronteira que separa uma do outro. Assim, o comportamento dos trambiqueiros que pretendem enriquecer dando golpes na ignorância popular acaba se confundindo com a força das superstições populares.
O resultado deste, digamos, desregramento (houve tropeços diversos durante a realização, inclusive troca de nomes no elenco) é um pacote desajustado que contém de tudo um pouco, desde cômicas homenagens a clássicos da literatura infantil de todos os tempos (Chapeuzinho Vermelho, Bela Adormecida, João e Maria, Cinderela, entre outros) até a mixórdia entre a costumeira bizarria visual e o sentido obscuro das narrativas ''para crianças'' proposta por Gilliam.