Uma significante parte do setor varejista brasileiro vive uma virada de página. Com corredores mais vazios, custos operacionais elevados e consumidores cada vez mais habituados às compras digitais, lojistas e administradoras de muitos shoppings centers em várias cidades brasileiras passaram a questionar se manter as portas abertas por até 12 horas diárias ainda faz sentido. O debate, que circulava nos bastidores do varejo há alguns anos, ganhou volume em 2025 e 2026 — e já chegou às câmaras municipais.
Os números explicam a inquietação. Dados da Abrasce (Associação Brasileira de Shopping Centers) mostram queda de 6,2% nas visitas mensais entre 2019 e 2025. Embora o faturamento nominal tenha crescido, as vendas reais recuaram 25% no período, já descontada a inflação. Em paralelo, o comércio online atingiu R$ 235,5 bilhões em 2025 — e desde 2024 já superou o faturamento dos shoppings.
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O consumidor que migrou para o digital fez um cálculo simples: comprar pela internet elimina deslocamento, estacionamento e gastos extras. Em tempos de juros altos e endividamento crescente, essa equação pesa. No mercado de celulares, referência do comportamento de consumo, as vendas online saltaram de 25% em 2020 para 45% em 2025.
Com isso, o shopping que insiste em funcionar até as 22h em dias de baixo movimento — segundas, terças — arca com custos de iluminação, climatização e pessoal sem retorno proporcional em vendas. As propostas que circulam no setor incluem abertura mais tardia nos dias úteis, encerramento antecipado e horários diferenciados por segmento, com alimentação e serviços operando em janelas mais amplas do que as lojas de produtos.
O shopping se reinventa
Ao mesmo tempo em que discute horários, o setor promove uma transformação mais estrutural. O shopping que era essencialmente um centro de compras passa a se posicionar como destino de experiência — ponto de encontro, espaço gastronômico, palco de eventos e lazer.
A Abrasce registra que 31% dos visitantes frequentam shoppings especificamente em busca de entretenimento. A gastronomia, que ocupava 27% das operações fora das praças de alimentação em 2018, hoje representa 17,5% do mix total de lojas e segue crescendo.
O que o e-commerce não consegue oferecer — convivência, presença física, experiência sensorial — passa a ser o principal argumento do varejo físico. Shoppings investem em gastronomia autoral, rooftops, shows, exposições e espaços culturais. A loja de produtos perde protagonismo; a experiência de estar lá ganha.
O movimento pelo país
Em Salvador, a Câmara Municipal analisa projeto de lei que propõe limitar o funcionamento dos shoppings até as 21h, de segunda a sábado, com fechamento das lojas aos domingos — mantendo apenas alimentação e entretenimento.
O autor, vereador Maurício Trindade, argumenta com a segurança e a qualidade de vida dos trabalhadores que precisam se deslocar à noite em transporte público. O projeto divide o setor: lojistas são contra; sindicalistas de comerciários apoiam.
Nas grandes administradoras, a resistência permanece. O presidente da Abrasce chegou a afirmar que "tem mais chance de o shopping ficar aberto 24 horas por dia" do que fechar mais cedo — deixando claro o campo de tensão em que o debate se instala.
Londrina não vê motivo para mudar
Em Londrina, a conversa sobre redução de horários chega com menos urgência. A cidade tem uma das mais sólidas culturas de consumo em shoppings do interior brasileiro, com cinco grandes empreendimentos e mais de 23 mil estabelecimentos comerciais e de serviços.
O Catuaí Shopping, referência do varejo paranaense desde 1990, recebe cerca de um milhão de pessoas por mês. Pesquisa do Sebrae/PR com a Associação Comercial e Industrial de Londrina (ACIL) e a consultoria Litz, publicada em 2025, confirma que o shopping lidera como canal preferido no vestuário com 62% de escolha — e que 93% dos londrinenses afirmam gostar de comprar presencialmente.
Uma pauta que anda junto com o fim do 6x1
O debate sobre horários de shoppings não pode ser lido de forma isolada. Ele está diretamente ligado à discussão, em tramitação no Congresso, sobre o fim da escala 6x1 no comércio — o modelo de seis dias trabalhados para um de folga, predominante no varejo brasileiro.
Uma janela horária mais curta, concentrando operações nos períodos de maior movimento, seria uma das formas de viabilizar a transição para jornadas menores sem inviabilizar economicamente as operações. A H&M, que inaugurou em abril de 2026 sua unidade no Shopping Rio Sul com 87 funcionários em escala 5x2, já testa esse caminho na prática.
A discussão sobre horários de shoppings é, portanto, muito mais do que uma resposta à queda de fluxo ou à ascensão do digital. É uma adesão ao diálogo mais amplo sobre dignidade no trabalho e sobre o futuro de um modelo de jornada que, durante décadas, foi tratado como inevitável — mas que hoje enfrenta pressão simultânea de consumidores, trabalhadores e do próprio mercado.
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