Polícia

‘Eles riram do nosso sofrimento’, diz avó de adolescente morto pela PM em Cambé

20 mai 2026 às 16:48

Poucos dias após Luan Henrique dos Santos Leite, de 14 anos, ser morto em um suposto confronto com a PM (Polícia Militar) em Cambé (Região Metropolitana de Londrina), o sentimento que permanece entre familiares e amigos do adolescente é de revolta. O estudante foi abordado pela polícia após sair de uma lanchonete, na última quinta-feira (14), momento em que pilotava a moto de um amigo. Ele, que estava acompanhado de outro adolescente de 14 anos, fugiu dos agentes e foi alvejado na rua Equador. Segundo o BO (Boletim de Ocorrência), Luan estaria armado.


O outro adolescente não foi atingido pelos disparos, mas foi encaminhado para a Santa Casa de Cambé e recebeu alta hospitalar pouco depois. Desde a morte de Luan, familiares passaram a cobrar esclarecimentos sobre a ação policial e contestam a versão apresentada pela PM no boletim de ocorrência. A família já constituiu advogado e foi ouvida pela Polícia Civil na última segunda-feira (18).


O Portal Bonde esteve na casa de uma das familiares do jovem nesta quarta-feira (19). A rua foi tomada por amigos da mesma faixa etária, que trajavam camisetas com o rosto de Luan estampado. A avó do menino - ou mãe de criação como se considera -, Marilene Maria da Silva, de 48 anos, disse que passou parte do dia com o neto, poucas horas antes da notícia.


“Depois de ficar comigo, ele saiu para a rua para brincar. Até tiramos sarro dele. Eram 8h da noite quando ele me mandou uma mensagem pedindo R$ 10 para comprar um lanche, e eu disse que não tinha para ele vir jantar. A partir desse momento, não me respondeu mais”, relembrou.


A preocupação começou cerca de duas horas depois, quando o adolescente ainda não havia retornado para casa. Segundo Marilene, o primeiro sinal de que algo grave havia acontecido veio por meio de amigos de Luan.


“Eram 10h da noite e ele ainda não tinha chegado, e eu fui dormir. Quando me deitei, um amigo dele me ligou perguntando se o Luan estava em casa. Já fiquei assim [preocupada]. Quando peguei o celular, vi que havia acontecido um ‘confronto’ em Cambé. De repente, o amigo ligou de volta e me avisou que a polícia matou o Luan. Naquele momento, levantei gritando. Meu esposo, minha filha e eu começamos a gritar no apartamento.


Procura por Luan


Desesperada, a família saiu pelas ruas de Cambé tentando localizar o local da ocorrência. Segundo a avó, a busca aconteceu em meio “ao choque e ao desespero”.


“Não conseguimos achar onde tinha acontecido esse ‘confronto’. Saímos desesperados, fomos para um lugar, fomos para outro. O meu marido estava a ponto de bater o carro”, afirmou Marilene.


Ao chegar à rua Equador, onde a perícia já fazia os levantamentos, Marilene conta que foi impedida de se aproximar do corpo do neto. Ela relatou ainda que policiais apontaram uma arma em sua direção quando tentou atravessar o isolamento da cena.


“Quando cheguei e vi aquele monte de polícia e o carro do IML (Instituto Médico Legal), joguei o meu chinelo do pé e saí correndo por debaixo da faixa. Os policiais me seguraram e um deles me apontou uma arma grande. Eu ergui a roupa e falei: ‘Por que você está apontando isso? Vai me matar também? Você não tem filho? Não tem família? Porque você acabou com a minha.’”


Frieza diante do sofrimento


A revolta da família, segundo Marilene, foi intensificada pela postura que os policiais teriam adotado durante o atendimento da ocorrência. Ela afirmou que os agentes demonstraram frieza diante do sofrimento dos parentes.


“Em momento algum eles me deixaram chegar perto do corpo do Luan. A gente chorando, gritando e eles dando risada. Eles estavam dando risada do nosso sofrimento. Para mim, o mundo tinha acabado naquele momento”, disse.


Segundo a avó, a confirmação de que o corpo levado pelo IML era realmente de Luan só aconteceu horas depois.


“Quando o IML saiu com o corpo, a gente seguiu o veículo. Eles pararam, e pedi para eles deixarem eu ver o corpo, mas disseram que não podia. Perguntei as características e mostrei uma foto do Luan. Eles viram, se olharam, abaixaram a cabeça e confirmaram que era o corpo dele. Naquela hora, pareciam que estavam me esfaqueando”, relembrou Marilene, emocionada.


Motocicleta


Segundo a avó, o adolescente não era o proprietário da motocicleta utilizada na fuga. A moto, conforme relatado pela família, estava regularizada e já foi retirada pelo dono.


“No dia que ele morreu, ele não estava de moto, mas sim de carro com o pessoal. Porém, o rapaz que é dono da moto disse que estava com o pé machucado e pediu para trocar com o Luan”, explicou.

Marilene também afirmou que Luan tinha medo da polícia após episódios anteriores envolvendo uma bicicleta motorizada.


“O Luan só correu porque ele tinha medo dos policias. Ele já havia sido ameaçado por eles por conta de uma bicicleta motorizada. Ele foi ameaçado de morte umas quatro vezes por causa disso.”


Vídeo do momento


A reportagem teve acesso a um vídeo - ainda não reconhecido oficialmente nas investigações - que mostra os momentos finais da perseguição. Nas imagens, após abandonar a motocicleta, Luan corre pela rua antes de ser atingido por diversos disparos. Segundo familiares, foram contabilizados cerca de 24 tiros. O adolescente ainda consegue correr alguns metros antes de cair. Parte dos disparos ocorre quando ele já está no chão.


“Não sei de onde surgiram esses vídeos. Só sei que chegaram até mim. Agradeço muito a essa pessoa que filmou, porque eu creio em Deus que por meio disso a gente vai conseguir justiça. Eles vão pagar. Eu vou atrás de justiça até o meu último dia de vida. Não vou parar enquanto eles não pagarem pela execução que fizeram com a minha criança.”


A família também contesta a versão de que Luan estaria armado no momento da abordagem policial.

“Ele nunca esteve armado. Aquela arma foram esses assassinos que jogaram lá. Eles podem até ter colocado a mão da criança na arma.


Adolescente 'brincalhão'


Aluno do 7º ano no Colégio Estadual Manuel Bandeira, Luan era descrito pelos familiares e amigos como um adolescente “brincalhão” e sem histórico de envolvimento criminal. A família também rebateu comentários feitos nas redes sociais após a divulgação do caso.


“Vi esse menino nascer. Eu o criei desde que ele nasceu. Era meu neto, meu sangue, mas era meu filho, porque ele me chamava assim. Era um menino brincalhão, querido, que nunca teve passagem pela polícia, nunca teve envolvimento com o tráfico. Nem bebia!”


'Fomos criados juntos'


Uma prima de Luan, também adolescente, disse que o jovem foi criado junto com os familiares e afirmou acreditar que houve excesso na ação policial.


“A gente estudou junto, foi criado junto. E, do nada, perco o meu primo por causa de polícia, de uma injustiça. Contamos 24 disparos no vídeo. Não deu nem tempo de ele pedir socorro.


Intimidações


Amigos que estavam com Luan momentos antes da perseguição também afirmam que ele não tinha envolvimento com crimes. Nathália Torres, de 19 anos, relembrou os minutos que antecederam a morte do adolescente.


“A gente estava no lanche e resolveu dar uma volta. Nessa volta aconteceu tudo isso. Quando eu vi o Luan descendo a marginal, já vi a polícia correndo atrás dele. Entrei em desespero. Tentamos ir atrás dele, mas não achamos. Quero justiça. Ele não era bandido!”, disse a jovem.


Familiares e amigos ouvidos pela reportagem também relatam que têm sofrido intimidações desde o episódio. Segundo eles, viaturas da PM passaram a circular frequentemente pelas ruas próximas às casas de pessoas ligadas a Luan. Durante a entrevista da reportagem, uma viatura permaneceu estacionada a cerca de 50 metros do imóvel onde os familiares conversavam com a equipe. Após a aproximação da reportagem, o veículo deixou o local.


Boletim de ocorrência


No boletim divulgado pela PM no dia seguinte à ocorrência, a corporação afirmou que equipes faziam patrulhamento quando avistaram uma motocicleta ocupada por dois jovens em “atitude suspeita”. Segundo o relatório, “os ocupantes fugiram em alta velocidade, avançaram preferenciais e colocaram pedestres em risco durante a perseguição”.


Ainda conforme a versão oficial, o condutor abandonou a motocicleta e fugiu correndo com uma das mãos na cintura, portando uma pistola calibre .380. A corporação afirma que houve ordem para que ele soltasse a arma, mas a determinação não teria sido obedecida, o que levou aos disparos efetuados pelos policiais.


Em nota, a Polícia Militar informou que um procedimento interno irá apurar as circunstâncias da ocorrência em conjunto com as autoridades competentes e reiterou “seu compromisso com a legalidade e a transparência”. A Polícia Civil também foi procurada, mas não comentou o assunto.


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