Paraná

Polícia Civil apura possível fraude na Prova Paraná Mais por estudantes

25 mar 2026 às 15:09

Oito pessoas são alvos de uma operação da PCPR (Polícia Civil do Paraná) que investiga uma possível fraude durante a aplicação da Prova Paraná Mais 2025, cujos resultados podem garantir vagas em instituições públicas de ensino superior. O caso foi registrado em uma escola estadual de Tapejara (Noroeste). De acordo com a investigação, sete alunos obtiveram aprovação de forma irregular. Cinco ingressaram no curso de Medicina nas universidades estaduais de Londrina (UEL), Maringá (UEM) e Ponta Grossa (UEPG).


Em coletiva na manhã desta quarta-feira (25), a delegada delegada da PCPR Taís Mendonça de Melo explicou que a operação foi deflagrada na segunda-feira (23) para o cumprimento de mandados de busca e apreensão contra oito alvos, sendo sete alunos e uma fiscal da prova. “Os alunos foram ouvidos e relataram que utilizaram o celular na hora da prova”, aponta, complementando que, a princípio, a investigação aponta que a decisão de fraudar a prova partiu dos próprios estudantes.


A delegada afirma que ainda não há evidências que comprovem que a fiscal recebeu valores em dinheiro para permitir a fraude no processo seletivo. “Isso ainda vai ser apurado. Os celulares foram apreendidos e outras pessoas ainda serão ouvidas para que a gente possa chegar a essa conclusão, se teve uma participação de omissão ou mais ativa”, complementa. “Ela facilitou ou se omitiu”, aponta.


Melo explica que a investigação foi conduzida pelo núcleo de Maringá da Deccor (Divisão Estadual de Combate à Corrupção) por meio de dois procedimentos diferentes: um para os investigado maiores de idade e outro para os adolescentes que possuem, em média, 17 anos.


Fraude e corrupção de menores


Os investigados que são maiores de idade, assim como a fiscal, podem responder pelo crime de fraude a certames públicos e corrupção de menores, haja vista a presença de adolescentes. Os menores devem responder por ato infracional análogo ao crime.


Os mandados foram cumpridos em Tapejara, Londrina, Maringá (Noroeste) e Ponta Grossa (Campos Gerais), onde os estudantes já estavam matriculados em cursos de alta concorrência, como o de medicina, na UEL, UEM e UEPG.


A delegada pontua que o padrão de resposta foi identificado em um grupo específico de estudantes, mas destaca que os demais alunos que estavam dentro da mesma sala de aula também devem ser ouvidos para que possam relatar o que presenciaram no dia.


Seed notou 'padrão inconsistente'


Anferfabio de Oliveira é diretor de educação Seed e explica que no dia 5 de fevereiro, quando a pasta recebeu o resultado preliminar da Prova Paraná Mais, a equipe identificou um padrão inconsistente de respostas no Colégio Estadual Santana, no município de Tapejara.


O “padrão inconsistente”, de acordo com o diretor, foi visto na porcentagem de acertos dos estudantes, o que já “saltou aos olhos” da equipe, assim como através da TRI (Teoria de Resposta ao Item), também utilizada em outras avaliações, como o Enem (Exame Nacional do Ensino Médio).


“A gente consegue, de uma forma muito precisa, cruzar os padrões de desempenho, então ora esses estudantes estavam no básico ou abaixo do básico e, de repente, eles apresentaram um padrão de resposta avançado”, detalha Oliveira.


Segundo ele, através do cruzamento de respostas e de análises estatísticas, levando em conta o banco de dados relacionados aos padrões de aprendizagem dos estudantes, foi possível uma semelhança atípica no padrão de respostas do grupo de estudantes. A partir daí, a Polícia Civil foi acionada para investigar uma possível fraude, buscando a lisura e a credibilidade do Programa Aprova Paraná Universidades, aponta o diretor.


Já estavam matriculados


Ao todo, seis dos sete estudantes envolvidos na investigação já estavam com as matrículas feitas nas universidades. Sobre a exclusão dos suspeitos, Oliveira afirma que é necessário aguardar a conclusão das investigações para que a pasta possa tomar as medidas proporcionais e cabíveis ao processo. “Nós almejamos, sim, [a exclusão], até para um sentimento de justiça e para preservar a lisura e a credibilidade do programa”, reforça.


Segundo ele, esse é um caso isolado dentro de um programa que conta com a participação de 70 mil estudantes. “Que esses estudantes sejam retirados do programa e que a gente consiga direcionar as vagas a quem é de direito”, afirma.


Questionado sobre uma possível fragilidade no sistema de aplicação das provas, o diretor negou e garantiu que essa foi uma “situação pontual” e que prontamente foi notada pela equipe responsável pelo programa.


Anferfabio de Oliveira garante que toda intercorrência que acontece durante um processo dessa magnitude serve como base para que os protocolos de aplicação e segurança sejam revistos e melhorados.


Fiscal da prova


A fiscal da prova não era ligada à Secretaria de Estado da Educação, sendo que apenas preenchia os requisitos para participar do processo seletivo como aplicadora. “Nós aguardamos a conclusão do inquérito para verificar a responsabilidade que ela teve durante esse processo, mas ela preenchia os requisitos necessários para ser uma aplicadora do programa”, afirma, citando que a prova é aplicada por uma empresa contratada pela secretaria.


UEL


Por meio de nota, a UEL informou que acompanha a operação e "está à disposição das autoridades para colaborar com as investigações, reafirmando seu compromisso com a lisura no ingresso ao ensino superior público."


"Após a investigação da PCPR, caso sejam confirmadas irregularidades envolvendo estudantes matriculados na UEL, serão adotadas as medidas judiciais cabíveis, incluindo a anulação das matrículas, conforme a legislação vigente", acrescentou a instituição.


UEPG


"O Aprova Paraná Universidades é uma forma reconhecidamente segura e democrática de ingresso nas instituições públicas estaduais de ensino superior do Paraná e deve ser defendida enquanto tal, a despeito de qualquer tentativa de fraude", afirma a UEPG, também por meio de nota.


"No caso mencionado, a Universidade Estadual de Ponta Grossa trabalha de forma a colaborar com a investigação, para que se esclareçam quanto antes os fatos. A Universidade informa ainda que medidas cabíveis serão tomadas caso se comprove qualquer irregularidade, e que continuará atuando para tornar essa forma de ingresso cada vez mais segura em edições futuras."


UEM


Já a UEM esclarece que a diligência realizada pela Polícia Civil nas dependências da instituição contou com o devido acompanhamento institucional. "A UEM colabora integralmente com a Seed — responsável pela organização do processo seletivo em questão — e com as demais autoridades para garantir a celeridade das investigações. A instituição adotará as medidas administrativas e legais pertinentes ao caso conforme o avanço do processo, permanecendo à disposição para esclarecimentos dentro de sua competência."

Continue lendo