Após uma batalha de meses pela vida, um filhote de onça pôde finalmente retornar à natureza. Resgatado com diversas lesões e com a indicação inicial para a eutanásia, o felino passou por quatro meses de tratamento do HV (Hospital Veterinário) da Unifil, credenciado como Cafs (Centro de Apoio à Fauna Silvestre), e foi solto nesta terça-feira (10) em seu habitat natural.
A médica veterinária Daniele Martina, coordenadora do HV da UniFil, explica que o filhote de onça foi resgatado em uma propriedade rural em Guaraci no dia 7 de novembro após ser atacado por cães. Segundo ela, o felino estava caquético e muito desidratado, o que o tornou um alvo fácil para os cachorros.
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Ela detalha que o animal chegou ao hospital com fraturas na coluna cervical, quatro costelas quebradas e lacerações no abdômen e na região inguinal. Por conta da fratura na coluna cervical, ela não apresentava movimento e nem mesmo reagia a estímulos.
Devido a gravidade do caso, a veterinária explica que a indicação inicial era a de eutanásia. “Mas a gente resolveu tentar. Aqui nós temos uma política interna nossa que se for para o animal ir, melhor ir tentando lutar”, afirma.
A partir daí, o equipe deu início a um tratamento intensivo para o filhote de onça, que começou com 7 dias na UTI (Unidade de Terapia Intensiva) sendo monitorado de perto e recebendo medicação, alimentação e outras terapias, como a acupuntura, para estimular toda a parte neurológica.
“Devagarinho, conforme foi passando o tempo, ela foi sendo responsiva ao tratamento”, celebra. Ao todo, a onça permaneceu internada por quatro meses no HV. “Nós tratamos, reabilitamos e depois ela foi para a soltura”, explica.
Martina explica que o filhote, que tinha três meses na época, chegou com cerca de 6 quilos. Agora, depois de todo o processo de reabilitação, ela foi solta com mais de 17 quilos. “É um animal que está recuperado e todas as características que ela precisa para ser solta estão preservadas, que são as características selvagens, de caça, de defesa, que é um trabalho que nós fazemos aqui durante a reabilitação para a soltura”, afirma a veterinária.
É comum ver comentários de pessoas questionando se a melhor solução para animais é a soltura na natureza, o que a especialista garante que é a sempre a melhor escolha. “O melhor para o animal é o habitat dele, nunca o cativeiro é a melhor opção”, reforça. Há mais de uma década atuando com animais silvestres, a veterinária explica que o trabalho da equipe envolve a preservação das características selvagens dos animais.
“Em nenhum momento é tentado uma aproximação, o contato físico, em nenhum momento é tentado socializar esse animal com o ser humano. Todo o manejo é voltado para que esse animal volte para a natureza”, garante. Entretanto, ela detalha que apenas os animais aptos retornam à natureza, sendo que alguns permanecem em cativeiro já que não têm essas características necessárias para a soltura.
Após acompanhar e cuidar do filhote de onça por vários meses, a veterinária afirma que a soltura é um momento de muita emoção. “Cada um deixa um rastro especial na gente, de luta”, explica, citando a importância da Polícia Ambiental em todo o processo, do resgate à soltura.
Além do filhote de onça, a equipe também participou da soltura de outros três animais: um jacaré, um quati e um tamanduá-mirim. No caso do jacaré, ela explica que ele foi capturado na semana passada em uma propriedade rural entre a região do Distrito da Warta, em Londrina, e o município de Sertanópolis.
O jacaré estava dentro de um tanque de tilápias. O animal, segundo ela, pesa cerca de 15 quilos e mede 1,4 metro, sendo um macho jovem. A expectativa é de que ele chegue a mais de 2,5 metros e até 60 quilos.
O resgate do animal demorou mais de 10 horas, já que foi necessário esvaziar o tanque e aplicar manobras especiais de captura. “É animal que tem uma força gigantesca, que é agressivo e que tem uma habilidade gigantesca de movimentação e de ataque”, afirma.
Daniele Martina explica que o animal estava saudável, com um peso adequado e exames dentro da normalidade. “Ele ficou alguns dias aqui no hospital só para dar uma aliviada no estresse da captura, se alimentou, descansou e foi solto”, aponta, destacando que os animais saudáveis são soltos o quanto antes.
O quati foi encaminhado pela Força Ambiental, que resgatou o animal e o levou imediatamente para atendimento especializado, o que a veterinária aponta que faz toda a diferença no prognóstico. O quati estava com a lateral do tórax dilacerada, sendo que era possível até mesmo as costelas do animal. “Ela estava cheia de larvas, com miíase, anêmica, caquética, então foi um trabalho intenso para que ela pudesse se recuperar”, explica.
O animal ficou por um mês em tratamento no hospital até as feridas cicatrizarem e, nesse período, conseguiu ganhar peso e pôde retornar à natureza.
O tamanduá-mirim foi encaminhado pelo Cafs de Maringá, que solicitou apoio da unidade de Londrina, com uma quadro de desidratação e com várias alterações neurológicas. “O tratamento foi rápido porque o animal foi bem responsivo e ele já pôde voltar à natureza”, detalha.
A soltura dos animais, principalmente daqueles de maior porte, envolve uma força-tarefa. A veterinária explica que o IAT (Instituto Água e Terra) é quem define o local em que os animais vão ser soltos e garante a viabilidade para que a equipe possa chegar até lá. “É um trabalho complexo e em conjunto entre o IAT, o hospital e a Ambiental”, afirma, detalhando que a soltura dos quatro animais levou mais de seis horas para ser finalizada.