O município de Cambé (Região Metropolitana de Londrina) começou a vacinar os profissionais que atuam na linha de frente contra a dengue, uma doença viral transmitida pelo mosquito Aedes aegypti. Até o momento, o município recebeu 193 doses da vacina produzida pelo Instituto Butantan, que funciona em dose única e ajuda a evitar casos graves da doença, como a dengue hemorrágica.
Bárbara Radigonda é coordenadora dos Serviços de Vigilância Epidemiológica da Prefeitura de Cambé e explica que a estratégia é vacinar primeiro os trabalhadores da saúde que atuam na linha de frente no combate à dengue, como agentes comunitários e de combate às endemias e os vacinadores. Segundo ela, Cambé recebeu até o momento 193 doses da vacina, sendo que a estimativa é vacinar aproximadamente 190 profissionais.
Conforme o recebimento de novos imunizantes, o objetivo é contemplar todos os 300 profissionais que atuam na APS (Atenção Primária em Saúde). Ela explica que a vacina do Instituto Butantan é recomendada para pessoas entre 15 e 59 anos. “Com uma dose só a gente já considera a pessoa com o esquema completo e imunizada”, afirma.
A coordenadora aponta que ainda não há previsão de quando a vacina, que é distribuída pelo Ministério da Saúde em parceria com a Sesa-PR (Secretaria da Saúde do Paraná), será ofertada para a população geral. “Conforme novas remessas forem sendo recebidas, a gente vai realizando a ampliação, mas ainda não há previsão para o recebimento de novas doses”, explica.
Sensibilização
Em relação à adesão dos profissionais à vacinação, Radigonda aponta que muitos estão contentes em poder receber o imunizante. Por outro lado, ainda é necessário fazer um trabalho de conscientização com os trabalhadores, principalmente por ser uma vacina que está chegando agora. “A gente tem feito a sensibilização, tem explicado os benefícios da vacina”, explica, complementando que a resistência ao imunizante vem de uma pequena parcela dos profissionais.
Bárbara Radigonda afirma que falar em vacinação é falar em proteção. “É um soldadinho que está ali e que protege o nosso organismo”, exemplifica.
Outras medidas necessárias
Apesar de a vacina ser uma esperança no combate à dengue, ela reforça que é fundamental manter outros hábitos para que o mosquito para de fazer mais vítimas, como a limpeza dos quintais e a eliminação de possíveis criadouros, como recipientes que podem acumular água. “São medidas que a gente precisa continuar fazendo e a vacinação vem para ajudar nesse combate à dengue”, afirma.
Cambé registrou em 2026, até o momento, 673 casos de dengue, sem o registro de óbitos pela doença. Já em 2025, o número de confirmações em todo o ano ficou na casa dos 3.856, sendo que 9 casos evoluíram para a morte. Em 2024, ano em que foi registrada a pior epidemia de dengue em todo o Brasil, foram 19.048 casos e 15 mortes.
Linha de frente
Sobre a decisão de começar a vacinação contra a dengue pelos profissionais da saúde, ela destaca que são eles que estão na linha de frente. “São profissionais que fazem o trabalho de campo, que vão até os domicílios, o trabalho deles está diretamente relacionado com a remoção dos criadouros, então são profissionais que estão muito expostos”, afirma, complementando que a probabilidade de eles adquirirem a doença é muito alta por conta dessa exposição.
Radigonda destaca também que quando um profissional contrai a doença viral, ele acaba ficando afastado, em média, por 7 a 10 dias, gerando um desfalque no quadro de profissionais de saúde. “A escala fica desprovida e isso acaba gerando todo um déficit na qualidade do atendimento à população”, garante.
Vacinação de crianças e adolescentes
A vacinação de crianças e adolescentes com idades entre 10 e 14 anos segue disponível em todas as Unidades Básicas de Saúde de Cambé. A imunização ofertada para essa faixa etária funciona em duas etapas, com reforço três meses após a primeira dose. A coordenadora lamenta que a cobertura ainda esteja muito baixa, com cerca de 40% do público-alvo vacinado. A meta, segundo ela, é atingir 90%. “Está muito aquém do que a gente espera”, complementa.
Aliviada e feliz
A agente comunitária de saúde Patrícia Ferreira de Pinho, 37, recebeu na manhã desta quarta-feira (11) a vacina contra a dengue. A reportagem conversou com ela na Unidade Básica Algacyr Ferreira, que disse estar aliviada e feliz por finalmente estar protegida contra a doença. Ela conta que já contraiu dengue três vezes, sendo a última em 2019, quando desenvolveu o caso mais grave: a dengue hemorrágica.
Ela explica que ficou internada por sete dias para receber a hidratação e acompanhar o sangramento através dos exames. “Era um caso muito grave”, afirma. Pinho explica que a dengue é uma doença que desestabiliza, principalmente pelo fato de não ter disposição para fazer nada, nem mesmo comer ou levantar da cama. “Você precisa ser carregada para todos os lados”, relembra, citando ainda as sequelas, em que ficou seis meses sentindo dores nas articulações após o quadro. “Parece que seus músculos vão estourar”, conta.
Animada, ela mostrou o curativo que cobria a picadinha da agulha com a tão almejada vacina da dengue. “É uma esperança de se livrar dessa doença porque como eu já passei por isso, a gente não vê a hora de liberar para todo mundo”, afirma.
Cleonice Vieira, 55, foi a primeira profissional da saúde a receber a dose na Unidade Básica Algacyr Ferreira. Ela conta que sempre teve um contato muito próximo com as pessoas com dengue, já que é agente comunitária de saúde e costuma fazer a busca ativa de pacientes, inclusive de grávidas com a doença. Segundo ela, a dengue é uma doença que deixa as pessoas muito debilitadas por conta das dores e da febre.
Vieira também teve dengue em duas oportunidades, em 2022 e 2023. Na primeira vez, ela afirma que foi um caso grave, em que a temperatura chegou próxima dos 39°C. Entre os sintomas, a febre foi o pior, mas garante que a vontade é de não fazer nada.
Silvana Galvão, 41, também é agente comunitária de saúde e recebeu a vacina nesta terça-feira (10). Passadas as primeiras 24 horas, ela garante que não teve nenhuma reação, nem mesmo dor no braço da aplicação, sendo tudo muito tranquilo. Mesmo sendo uma vacina nova, a agente optou por tomar a vacina, já que está na linha de frente do combate à dengue. “Vale a pena tomar porque você vai evitar muitas coisas no futuro”, garante.
Sobre o fato de a vacina ter chegado primeiro para quem atua diretamente no combate ao mosquito, Galvão afirma que se sentiu valorizada. No dia a dia das visitas nas casas, ela admite que ainda existe uma dificuldade das pessoas em entenderem a importância de manter um quintal limpo. Segundo ela, muitos mudam os hábitos após a visita dos agentes, o que mostra que o trabalho de orientação da equipe faz a diferença. Por outro lado, uma minoria ainda é resistente em adotar as recomendações.