Venezuelanos espalhados por todo o mundo festejaram a queda do ditador Nicolás Maduro, no último sábado (3), em Caracas, após a prisão orquestrada pelo governo Donald Trump, dos Estados Unidos. O imbróglio geopolítico, que foi chamado de interferência externa pelo governo brasileiro, também teve impacto em Londrina, onde centenas de venezuelanos se instalaram nos últimos anos.
Preso em Nova Iorque, o agora ex-presidente esteve à frente do país caribenho por quase 13 anos, período que foi marcado pelo desmoronamento da qualidade de vida, crises humanitárias e emigração em massa, esta última com reflexos diretos na ocupação Flores do Campo (Zona Norte), residencial abandonado em 2013 após problemas contratuais.
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O Portal Bonde esteve nesta segunda-feira (5) no loteamento, onde vivem, aproximadamente, 600 famílias, das quais cerca de 70% são venezuelanas, segundo estimativas de lideranças locais. A notícia da prisão de Maduro se tornou o assunto do momento e a comemoração foi intensa entre os imigrantes, que contaram à reportagem os motivos para a “festa”.
‘As crianças não tinham mais infância’
Pastor e líder da Igreja Missionária Luz do Salvador, Luis Alberto Rodriguez, 54, morava em Guayana, no estado de Bolívar, considerado um dos mais ricos da Venezuela. A deterioração das condições de vida, entretanto, não demorou para atingir a região.
“Os meus filhos vieram primeiro. Eles tiveram que sair do país por causa da questão econômica. Um deles morava em outra cidade, onde a vida era mais difícil. A Venezuela tem 23 estados, só que alguns são piores que outros”, relata.
O pastor veio apenas em 2021 para Londrina. Antes disso, quando ainda insistia em viver em Guayana, a filha dele enviava dinheiro para sustentar as crianças que ficaram na Venezuela com o avô. Com o tempo, porém, o valor passou a ser insuficiente.
“As coisas ficaram ainda piores por causa da pandemia. As crianças tiveram que ficar em casa. Na escola, elas recebiam pelo menos uma refeição por dia. Não conseguíamos mais alimentá-las, nem vesti-las. Os meus netos tinham que cortar lenha e carregar água para fazermos comida. Não tinham mais infância”, desabafa.
A chegada de Rodriguez a Londrina foi viabilizada com a ajuda de uma igreja. Uma das filhas dele, já alocada no município, pedia dinheiro em um sinaleiro quando conheceu um pastor da Igreja Batista. Ela contou a história da família e conseguiu apoio para as passagens aéreas. Foi também ela quem “desbravou” o Flores do Campo para os imigrantes, onde se tornou, segundo Rodriguez, a primeira venezuelana a se instalar.
Da violência à organização comunitária
Ao chegar ao Flores do Campo, Rodriguez encontrou um cenário marcado pela violência. Segundo ele, que atua como pastor há 30 anos, a presença da igreja que fundou foi determinante na mudança do ambiente.
“Quando cheguei aqui, vi que este lugar tinha muita necessidade de Deus. Havia muito crime. As pessoas faziam justiça com as próprias mãos. O crime governava. Era um lugar de morte”, diz, explicando que, a partir da atuação religiosa, passou a integrar a associação de moradores, da qual faz parte desde 2022.
Silêncio no regime e futuro do país
Rodriguez não contém as críticas ao comentar a prisão de Maduro. Para ele, a possibilidade de se expressar é um dos bens mais valiosos adquiridos em solo brasileiro.
“As coisas que estou falando agora, se eu falasse no meu país, ganharia 30 anos de prisão. Ele [Maduro] tirava todo o direito de liberdade de expressão. Colocou em todas as comunidades um conselho comunitário, que são pequenos governos locais. Se falasse qualquer coisa, e eles ficassem sabendo, você era preso e torturado.”
O pastor diz enxergar com expectativa a transição política. Ele defende a ascensão de María Corina Machado, vencedora do Nobel da Paz, como a próxima presidente do país caribenho. Além disso, não se assusta com as interferências de Trump.
“Há muita expectativa. Acho que os EUA não têm necessidade de roubar o petróleo na Venezuela. Eles vão cobrar somente o que foi gasto. É uma questão até bíblica. Aquele que foi vencido se torna escravo de quem venceu. Por enquanto, a única pessoa que poderia governar está inabilitada [María Corina] e a transição vai levá-la a participar da próxima eleição. Assim será legítima”, supõe.
Impedimentos para voltar
Rodriguez admite o desejo de voltar, mas o medo dos séquitos do regime chavista ainda é um impedimento.
“O meu filho não pode entrar na Venezuela, porque é perseguido pelo governo. Ele está foragido. Tenho duas casas lá, outros parentes, herança da minha mãe, mas eu não volto, porque minha família aqui não quer. Já tenho uma vida feita. Tenho muito a agradecer ao Brasil, mas, no meu coração, há uma coisa que se chama Venezuela.”
Cirurgia de risco no Brasil
A cuidadora de crianças Lenis Lira, 67, deixou Maturín, no estado de Monagas, e levou oito dias para chegar a Londrina, passando por Boa Vista (RR), Manaus (AM) e diversas outras cidades durante a viagem feita de ônibus. Ao chegar, ela passou por uma cirurgia de risco no coração na Santa Casa de Londrina.
“Cheguei aqui em 2022 para fazer uma operação, porque me negaram na Venezuela. Eles cobraram 400 dólares e eu não tinha recursos”, relembra.
Para custear a viagem que a trouxe ao Brasil, a idosa vendeu a única casa que tinha no seu país natal. Porém, de acordo com ela, tudo valeu a pena, pois o trabalho dos médicos londrinenses e o atendimento pelo SUS (Sistema Único de Saúde) foram excepcionais.
“Nunca fui maltratada aqui no Brasil, nem no hospital e em nenhum lugar. A minha cirurgia foi na Santa Casa de Londrina. Foi tudo maravilhoso e os médicos são maravilhosos. Não paguei nem os remédios.”
Comparações com Venezuela
A saúde de qualidade - e de graça - no Brasil a fez lembrar de tempos áureos que a Venezuela viveu até 2012. Ela afirma que, até o fim do governo Hugo Chávez, as coisas funcionavam bem.
“Antes de Maduro, a gente não pagava nada. Os médicos iam até as casas. Agora é tudo por dólar. A moeda não vale nada. Tem que fazer qualquer coisa, vender geladeira, animais, tudo”, expõe a idosa, que cuida de três crianças para sobreviver e agradece, apesar dos problemas, a estadia no Flores do Campo.
“Aqui sou uma princesa. Agora que vou ter uma nova casa, estou mais feliz ainda. Não vejo a hora de ter a minha nova casa”, espera Lira, referindo-se ao anúncio feito pela Prefeitura de Londrina e pelo Governo Federal sobre novas casas para 1,2 mil famílias da região.
Assim como Rodriguez, apesar da saudade, ela não pretende voltar à terra natal. “Vai ser difícil visitar a Venezuela novamente. Vendi a casa que tinha para chegar ao Brasil. Aqui é a minha casa agora.”
Choro pela 'liberdade'
A empreendedora Silvia Franco, 32, diz ter chorado ao saber da prisão de Maduro. Segundo ela, a sensação foi de liberdade e justiça pelo passado, presente e futuro “usurpados”.
“Chorei quando soube da notícia. Chorei porque tinha um trabalho muito bom lá. Por causa de tudo isso, tive que vir para cá”, afirma.
Ela era subgerente de uma empresa de roupas e calçados, cargo que ocupou por dez anos. Formada em administração de empresas pelo IUT (Instituto Universitário de Tecnologia), viu a carreira ruir com o agravamento da crise. “Meus estudos valeram a pena, mas, depois que entrou o governo de Nicolás, tudo ficou ruim.”
Franco chegou ao Brasil em 2021. Assim como a maioria, passou por Roraima, seguindo para Santa Catarina. Grávida e sem documentação, enfrentou dificuldades, mas conseguiu dois empregos, um deles na Caixa Econômica Federal.
“Eram dois serviços muito bons. Isso foi o principal que gostei no Brasil. Me deram muitas oportunidades. Estive no Peru e na Colômbia, mas não tive esse acolhimento. Sofri muita xenofobia. Não há nada para nós lá”, conta.
Reconstrução por meio da cultura
Após três anos em Chapecó (SC), mudou-se para o Flores do Campo em setembro de 2024, incentivada por um primo. Trabalhou em um supermercado e depois abriu o restaurante “Fogón de Arepa”, que fica dentro do residencial, onde vende comidas típicas venezuelanas e verduras buscadas no Ceasa.
“Faço o nosso prato típico arepa, vendo churrasco também, que é típico do nosso país e é diferente do brasileiro. Há muitos brasileiros que vêm comprar as nossas comidas também.”
Ela reconhece que as mudanças promovidas pela Prefeitura na região podem afetar o negócio que desenvolveu, mas o talento que possui a faz acreditar num futuro promissor.
“Sei que, com as mudanças, vou perder o meu espaço aqui, mas acho que vou seguir depois, porque a minha comida foi reconhecida, graças a Deus.”
Ninguém quis ir
Mesmo longe de casa, os venezuelanos mantêm vivo o amor à pátria, seja por meio da fé, da comida e da língua ou pelas decorações e bandeiras penduradas nas janelas. A prisão de Maduro simboliza, para muitos, o fim de um ciclo de dor, mas jamais o apagamento de suas raízes.
A canção “Lo que pasó a Hawaii”, de Bad Bunny - ícone da música porto-riquenha, parece representar com perfeição os sentimentos dos imigrantes que vivem no Flores do Campo, não por opção, mas por consequências de decisões que fogem do controle de cada um.
“Aquí nadie quiso irse, quien se fue sueña con volver [...] Quieren quitarme el río y también la playa. Quieren al barrio mío y que tus hijos se vayan. No, no suelte la bandera, ni olvide el lelolai. Que no quiero que hagan contigo lo que pasó a Hawái.” [Aqui ninguém quis ir embora, quem foi sonha em voltar [...] Querem me tirar o rio e também a praia. Querem o meu bairro e que teus filhos se vão. Não, não solte a bandeira, nem esqueça o lelolai (língua nativa). Pois não quero que façam contigo o que aconteceu com o Havaí.]