“No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto. Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos. E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer”, foi com a citação deste poema de Álvaro de Campos — heterônimo de Fernando Pessoa — que o jornalista paranaense formado na UEL (Universidade Estadual de Londrina), James Cimino, descreveu os sentimentos despertados ao encontrar um objeto pessoal no filme ‘O Agente Secreto’.
O passeio nostálgico ao Brasil dos anos 1970 que a reconstrução histórica do longa proporciona foi elogiado por críticos e público ao redor do mundo. Mas, para Cimino, o impacto foi mais direto e visualmente concreto. Uma camiseta de sua infância, registrada em uma foto do seu álbum de família, poderia ser a mesma peça escolhida pela figurinista Rita Azevedo para vestir o filho do protagonista, Fernando Solimões — encarnado por Enzo Nunes durante sua fase da infância.
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Seria essa a mesma roupa que sua mãe havia escolhido a dedo antes de levá-lo a um estúdio fotográfico para eternizar seu rosto em uma memória visual? Quais as chances de, 46 anos no futuro, essa ser a mesma escolha que agora se apresentava em sua frente na telona? Após alguns segundos incrédulo e duvidoso na sala de exibição, o jornalista chegou, confiante, a uma conclusão: a roupa era, de fato, a mesma.
A busca pela memória resgatada
Porém, com medo de que a suspeita fosse infundada ou apenas um delírio emocional, Cimino compartilhou com seu editor do UOL o desejo de passar a história a limpo com alguém da produção. Utilizando seus contatos da época de correspondente em Los Angeles (EUA), o jornalista conseguiu agendar uma entrevista com a figurinista. O alívio foi imediato: Azevedo confirmou a ligação e compartilhou que a origem de sua pesquisa foi justamente em álbuns de famílias, para recriar a composição visual do período.
O vídeo completo da história e sua entrevista com a figurinista foram publicados no perfil do UOL no Instagram, em colaboração com Splash UOL e o perfil do próprio jornalista.
O episódio ocorreu em dezembro do ano passado, enquanto Cimino caminhava pelas ruas de Paris, durante alguns dias de férias, quando decidiu assistir ao filme brasileiro no Centro George Pompidou, após ver um de seus totens na capital francesa. Na época, o filme brasileiro ainda estava em pré-estreia na França.
A lembrança de ver um Fusca amarelo junto de um Corcel, na abertura, ou uma sacola com a marca do hipermercado Jumbo Eletro, despertou a saudade no jornalista de um passado inocente e da convivência com aqueles que agora estão vivos apenas em memórias.
“Por isso a palavra saudade existe apenas no português. Ela é isso, uma tristeza da qual nunca queremos nos livrar. Somos aquilo que lembramos da vida; se nos esquecermos, esse passado deixa de existir”, analisa.
James se formou na UEL
Nascido em Maringá e criado em Curitiba, o jornalista compartilha que chegou a Londrina no final dos anos 90, em um dos momentos mais difíceis de sua vida. Seis meses antes de ser convocado em primeiro lugar no curso de jornalismo da UEL, a mãe de Cimino faleceu. “Despedaçado”, foi nos amigos da universidade que o jovem calouro conseguiu ter novamente a base de uma família para se reconstruir.
“Eu aglutinei vários desses meus amigos e eles viraram minha família. Como todos nós éramos gays, isso nos ajudou a ficar muito ligados. Causamos muito nas noites de Londrina”, recorda, aos risos.
Enquanto explorava o cenário parisiense ao som da trilha sonora do filme francês ‘O Fabuloso Destino de Amélie Poulain', o jornalista conta que recordou com saudade um desses amigos, Henrique Codato.
“Em Paris, estava hospedado na casa de um amigo e, um dia, decidi sair para explorar a cidade. Foi então que coloquei a música e comecei a lembrar do meu grande amigo, que me ensinou a falar francês e a amar ainda mais o cinema”, recorda.
Com forte perfil acadêmico, Codato tinha pós-doutorado pela Universidade Federal do Ceará e era doutor em Comunicação Social pela UFMG (Universidade Federal de Minas Gerais), mestre em Comunicação pela UnB (Universidade de Brasília), especialista em Literatura e Estética pela Universidade de Genebra e graduado em Relações Públicas na UEL.
Em fevereiro de 2020, após voltar de uma viagem à Colômbia, Codato faleceu devido a uma misteriosa infecção. Sem poder se despedir, Cimino guardou a dor do adeus e precisou novamente juntar os pedaços para seguir com sua vida.
“Quando ele morreu, a mãe dele mandou todos os amigos do grupo irem até o quarto dele para pegar uma lembrança. Mas eu não tinha conseguido ir e nunca peguei a minha”, lamenta.
Ainda em 2025, Cimino retornou a Londrina para visitar amigos e aproveitou a ocasião para ir até a antiga casa de seu grande amigo. Lá, ele descobriu que, após a perda do filho, a mãe de Codato vem gradativamente perdendo sua memória, devido a um diagnóstico de Alzheimer.
“Foi muito duro para ela esses seis anos sem o filho. Quando cheguei, pedi para ir ao quarto dele. Lá, entre livros acadêmicos e seus DVDs de filmes, encontrei até sua dissertação de mestrado sobre o filme ‘Tudo Sobre Minha Mãe’, de Pedro Almodóvar. Depois de meia hora ali, eu pensei que não encontraria nada para levar. Mas, de repente, olho para a estante e vejo o DVD de ‘Cinema Paradiso’, seu filme favorito”, detalha.
Muito mais que uma camiseta
Para além da vida, o cinema continua exercendo sua força na relação da dupla, como um espaço entre realidades. Cimino relata que a última mensagem de seu amigo, que dizia “no cinema”, foi o estopim para a criação de seu epitáfio de despedida.
“Na minha publicação, resgatei o dilema clássico de para onde vamos ao morrer: céu ou inferno? No texto, escrevi que o Henrique não tinha ido para nenhum dos dois, ele tinha ido para o cinema. E que, quando eu morresse, é para lá que eu queria ir também, para reencontrá-lo”, desabafa.
A história de Cimino com a camiseta do longa vencedor do Globo de Ouro de melhor filme internacional não chegou apenas à figurinista, mas também a outros dois grandes nomes da produção: o diretor de 'O Agente Secreto', Kleber Mendonça Filho, vencedor do prêmio de Melhor Direção em Cannes, e Wagner Moura, ganhador da categoria de Melhor Ator no mesmo festival.
O encontro ocorreu durante um evento de celebração à indicação do filme ao BAFTA, na residência do embaixador brasileiro em Londres (Reino Unido), Antonio de Aguiar Patriota. Cidade onde o jornalista mora há cinco anos.
“O Kleber adorou a história e me pediu que eu a enviasse para ele; repassei para a assessora dele depois. Mostrei a camiseta ao Wagner, que ficou surpreso. Ele também me disse que ‘Cinema Paradiso’ era o filme favorito dele”, conclui.
Por mais que a experiência de Cimino tenha sido excepcional, o relato do jornalista é um testemunho vivo da conexão entre cinema e memória, da arte com a vida.