Ainda havia fumaça saindo dos escombros quando os primeiros vizinhos começaram a chegar. Um trouxe roupas. Outro apareceu com alimentos. Pouco depois vieram cobertores, colchão e promessas de ajuda para reconstruir o que o fogo havia destruído em poucos minutos.
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No Jardim Cristal, ocupação localizada na Zona Sul de Londrina, a solidariedade costuma chegar antes de qualquer ajuda do poder público.
Se a primeira reportagem da série mostrou as dificuldades enfrentadas pelas cerca de 120 famílias que vivem na comunidade, a segunda revela como a união entre os moradores se tornou uma ferramenta indispensável para enfrentar os desafios de uma ocupação que aguarda há mais de uma década por regularização fundiária e melhorias estruturais. LEIA A PRIMEIRA REPORTAGEM AQUI.
Em um lugar onde faltam respostas sobre o futuro, os próprios moradores se organizam para resolver problemas, reconstruir casas, arrecadar recursos e garantir que ninguém fique desassistido.
Recomeçar das cinzas
Um dos exemplos mais recentes dessa mobilização aconteceu após um incêndio destruir completamente a casa do pedreiro Sidionil Pereira de Souza, de 53 anos.
Segundo moradores, um curto-circuito pode ter provocado as chamas. O fogo consumiu móveis, roupas, alimentos, ferramentas de trabalho e praticamente todos os pertences acumulados ao longo dos anos. Mesmo diante do cenário de destruição, Sidionil não cogitou abandonar o seu lar.
"Vou dormir aqui hoje. Sem teto mesmo, é a minha casa. Vou limpar tudo e dormir aqui. Não vou deixar abandonado", disse à reportagem, um dia após o incêndio.
Ao observar os escombros da residência, o pedreiro lamentava a perda das ferramentas que utilizava para garantir o próprio sustento.
"Queimou tudo. As minhas ferramentas, os cabos das minhas colheres. Mas Deus é bom e vai ajudar."
A resposta da comunidade veio rapidamente. Em poucas horas, moradores começaram a arrecadar roupas, alimentos, colchão e materiais de construção para ajudar o trabalhador a reconstruir a casa. Uma reportagem feita pelo Portal Bonde na época também permitiu, por meio da solidariedade dos leitores, que o pedreiro reunisse recursos para comprar materiais de construção.
"É muito triste essa situação. Ele lutou muito para ter as coisinhas dele. É tudo fruto dessa situação precária. Tudo que eles têm aqui é por nossa conta. Nós nos ajudamos", afirma Marielen Roberto, uma das lideranças do Jardim Cristal.
União
A cultura da ajuda mútua faz parte da rotina do Jardim Cristal. Foi dessa forma que moradores conseguiram recuperar parte da rede elétrica após sucessivos furtos de fios.
"Tivemos um gasto enorme com fios. Tivemos que nos unir para pagar R$ 5 mil em fiações que foram furtadas. Na verdade, eu paguei o valor à vista e o pessoal me ressarciu, porque foi uma coisa de urgência", relata Marielen.
Sem recursos públicos disponíveis para intervenções do tipo, a comunidade costuma recorrer às chamadas "vaquinhas" para custear despesas essenciais.
Os mutirões também fazem parte da história da ocupação. Moradores relatam que frequentemente se unem para limpar áreas comuns, cortar o mato, melhorar acessos, recolher resíduos e fazer pequenos reparos em estruturas utilizadas por todos.
Para Rosilene Muniz, outra liderança local, a sobrevivência da comunidade ao longo dos anos só foi possível por causa desse senso coletivo. "Se a gente não se ajudar, ninguém ajuda. Tudo aqui foi construído com muito esforço."
PEV na região
Em meio às reivindicações por infraestrutura, uma novidade foi a implantação do PEV (Ponto de Entrega Voluntária) Jardim Cristal/São Lourenço, voltado exclusivamente ao recebimento de resíduos verdes, como galhos, folhas, grama e restos de poda. A unidade, segundo a CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização) foi criada há cerca de 3 meses para oferecer um destino adequado a esse tipo de material, que muitas vezes acabava descartado de forma irregular em terrenos baldios ou às margens da ocupação.
O espaço não foi inaugurado oficialmente pela Prefeitura de Londrina, mas já atende diversas pessoas por dia. O PEV surpreendeu até mesmo as lideranças locais e os moradores, que não sabiam do tipo de serviço prestado.
Instalado na rua Mara Rocha, 300, o PEV é o terceiro em funcionamento em Londrina e atende principalmente a demanda das regiões Sul e Leste da cidade, que concentram um elevado número de jardineiros. O local funciona de segunda a sexta-feira, das 8h às 19h, e aos sábados, das 8h às 16h.
Com área de 6.400 metros quadrados e capacidade para receber até 11 mil metros cúbicos de resíduos, o espaço permite que cada gerador descarte até 1 metro cúbico de material por mês, volume equivalente a aproximadamente oito carriolas.
A CMTU mantém contrato com uma empresa responsável pelo monitoramento e controle de acesso da unidade, enquanto outra empresa faz a limpeza e a retirada periódica dos resíduos, utilizando caminhões basculantes e pá-carregadeira. Os porteiros orientam os usuários sobre o descarte correto, e a Companhia acompanha regularmente o funcionamento do espaço.
Muro que separa realidades
Moradores do Jardim Cristal relataram à reportagem a existência de um muro construído pela construtora Sial, responsável por empreendimentos habitacionais na área regularizada do bairro. Segundo os locais, esse muro delimita a parte considerada relevante para a empresa da parte sem importância. A reportagem apurou que há um terreno do lado de cima do muro que não foi ocupado. Na parte de baixo, entretanto, o terreno ainda é da construtora, mas está tomado pelas diversas construções irregulares.
Procurada pela reportagem, a SIAL Engenharia confirmou que a estrutura foi erguida como medida de proteção patrimonial e para delimitar fisicamente as áreas, impedindo que a ocupação avançasse sobre outros imóveis privados.
A empresa afirma que a área atualmente vazia não está abandonada e possui destinação habitacional definida, vinculada a um projeto do programa Minha Casa, Minha Vida. De acordo com a construtora, a preservação do espaço busca garantir a segurança jurídica do empreendimento e evitar novos conflitos relacionados à ocupação do terreno.
A SIAL também ressalta que nunca autorizou ações particulares de força contra os moradores e afirma que qualquer retirada coercitiva de pessoas depende da atuação das autoridades competentes e, quando necessária, de ordem judicial.
O sonho
Desistir nunca foi uma possibilidade para quem escolheu lutar pelo Jardim Cristal. Uma das principais lideranças da comunidade, Marielen Roberto afirma que a mobilização dos moradores é sustentada pela esperança de que a ocupação, um dia, seja regularizada.
"O que me motiva a fazer isso tudo é o certo, ver tudo aqui fluir. O União da Vitória foi conquistado assim. A minha mãe, graças a Deus, conseguiu e tudo foi fruto de um trabalho que ninguém via", diz, referenciando as conquistas da mãe, uma das articuladoras pela regularização do União da Vitória.
A líder comunitária também trabalha na criação de um comitê para reunir representantes de diferentes ocupações da cidade. A proposta é fortalecer as reivindicações e fazer com que comunidades que enfrentam problemas semelhantes passem a atuar de forma conjunta. O desafio é manter o ânimo dos residentes.
"Como nós vamos motivar essas pessoas? Elas já estão aqui há muito tempo para serem jogadas de escanteio. Aqui, a gente leva o 'não' muito antes."
A insegurança jurídica também influencia as decisões dos próprios moradores. Rosilene Muniz conta que muitas famílias deixam de investir nas casas por receio de perder tudo caso a situação da área não seja resolvida.
"Muita gente que está aqui tem terreno, mas tem medo de construir por falta de respostas concretas. Já não tem para fazer, imagina se depois perde."
Na avaliação dela, pequenas intervenções do poder público ou até mesmo de simpatizantes à causa já seriam suficientes para melhorar a qualidade de vida da comunidade.
"Há certas coisas que são tão simples para quem é grande ou tem condições. Poderiam trazer uma máquina [de cortar mato], passar aqui e não cobrar nada."
'Direito de viver aqui'
A aposentada Maria Aparecida de Souza, de 63 anos, chegou ao Jardim Cristal depois de não conseguir arcar com os custos da casa onde vivia.
"Vim para cá porque não tinha onde morar. Lá era a casa do meu pai, mas tive que sair."
Mesmo convivendo diariamente com ruas sem pavimentação, dificuldades de acesso e incertezas, ela diz que encontrou na comunidade um lugar para reconstruir a própria vida.
"É um sossego para morar, para viver aqui. Mas temos esses problemas."
O sentimento é compartilhado por muitos moradores. Depois de quase 13 anos, o Jardim Cristal deixou de ser apenas uma ocupação para se transformar no bairro onde centenas de histórias foram construídas. Há crianças que cresceram na comunidade, famílias que ergueram suas casas com as próprias mãos e vizinhos que aprenderam a enfrentar juntos as dificuldades. Para Marielen, a luta pela regularização vai muito além da posse do terreno.
"As pessoas me perguntam se eu fico frustrada com a falta de resposta e eu respondo que não espero nada em troca. O 'não' nós já temos. Queremos apenas ter o direito de viver aqui", completa Marielen.