Conhecido popularmente como "ouvido biônico", o implante coclear é um dispositivo eletrônico de alta tecnologia inserido através de cirurgia. Diferente dos aparelhos auditivos convencionais, que apenas amplificam o som, o implante estimula diretamente o nervo auditivo.
No Paraná, entre 2019 e 2025, foram 651 implantes na rede pública de saúde paranaense. Os procedimentos, assim como todo o tratamento, são oferecidos de forma gratuita pelo Sistema Único de Saúde (SUS), com repasses via Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), de mais de R$ 41,7 milhões apenas nesse período.
O implante é indicado para adultos que apresentam perdas auditivas severas, e para crianças com surdez congênita. O implante não é exclusivamente para pessoas que não ouvem nada, e sim também para quem, fazendo uso do aparelho convencional, não consegue mais ser atendido na sua necessidade.
Embora seja tecnicamente complexa e delicada devido ao espaço reduzido, a cirurgia é considerada de baixo risco clínico. Pode ser feita em bebês a partir dos 6 meses, até idosos acima de 90 anos, desde que haja condições clínicas.
O dispositivo conta com uma parte interna, que é colocada cirurgicamente dentro da cóclea (caracol da audição) e uma parte externa (que fica visível na parte posterior da cabeça) que é formada por um processador que capta o som ambiente. As duas partes são conectadas por um ímã, sendo que a externa deve ser retirada para tomar banho e dormir, e a bateria precisa ser carregada.
Avaliação para elegibilidade
O processo de avaliação para elegibilidade inclui exames clínicos e avaliação fonoaudiológica específica, como o exame BERA (Brainstem Evoked Response Audiometry). Também é importante a avaliação de psicólogos e outros especialistas, caso o paciente tenha alguma doença ou condição pré-existente.
O implante é ativado cerca de 30 dias após o procedimento cirúrgico e é essencial que a pessoa passe pela adaptação e acompanhamento com um médico otorrinolaringologista especializado em implante.
“Nesse primeiro momento o som é estranho e o volume é baixo. Existe todo um processo para ir adaptando e, gradativamente, ir ajustando o volume. E, com tudo isso acontecendo, o acompanhamento com fonoaudiólogo é fundamental, porque é preciso que o cérebro aprenda a interpretar os sinais elétricos enviados pelo implante”, explica o médico otorrinolaringologista Neilor Mendes, que coordena um dos Centros Especializados em Implante Coclear do Paraná, localizado no Hospital Angelina Caron, em Campina Grande do Sul, que atende de forma gratuita.
Como acessar o tratamento
A porta de entrada para acessar o tratamento é a Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência do paciente. A partir dessa consulta, caso exista a indicação, a pessoa será encaminhada para o setor especializado. “É importante as pessoas saberem como procurar o tratamento. As pessoas sabem, por exemplo, que se o rim delas não funcionar mais, elas podem fazer hemodiálise, mas a grande maioria não sabe que se ficar surda pode fazer um implante coclear”, diz Mendes.
Ainda conforme o médico, estudos apontam que em média apenas 5% das pessoas que poderiam ser beneficiadas com alguma tecnologia auditiva implantável de fato usam. “Realmente as pessoas não têm conhecimento do que é o implante, como funciona, e muito menos que elas podem fazer de graça pelo SUS”, destacou.
Apesar disso, essa realidade vem mudando, tanto que os números comprovam. Há 8 anos, eram feitos cerca de 30 implantes por ano e agora são aproximadamente 30 a cada dois meses. “O serviço está crescendo bastante, a Sesa nos apoia muito e com isso estamos conseguindo cada vez mais levar essa tecnologia, essa opção de saúde para os pacientes de todo o Estado do Paraná” acrescenta médico.
Na rede particular, o valor do implante coclear parte de R$ 65 mil, podendo chegar a R$ 170 mil.
Reaprender a ouvir
A professora Edilaine Montanhani, 49, de Altônia (Noroeste), e passou pelo implante coclear bilateral em 2022. Ela nasceu ouvinte, até que, aos 20 anos, começou a sentir a perda gradativa da audição. "No começo usava aparelho auditivo, que me ajudava, mas ainda assim tinha dificuldade de entender as palavras, sobretudo em lugares com muito barulho”, contou. “Mas, logo depois, perdi quase que totalmente a audição e precisei deixar a sala de aula”.
A mudança foi tão impactante na vida da professora que ela se isolou. “Eu cheguei em um determinado momento que mesmo com o aparelho auditivo não ouvia nada, me afastei do trabalho, dos amigos, não tinha mais vida”, relembra.
Mas ela não se entregou e buscou atendimento na Unidade Básica de Saúde, onde recebeu auxílio e orientação. “O médico me disse, num primeiro momento, que até para ele era uma situação nova, mas que eu seria encaminhada”.
Edilaine conta que passou por todo o processo de consultas e exames com especialistas. Entre a habilitação para o implante e a efetivação da cirurgia, foram cerca de 6 meses. “É um processo lindo, de reaprender a ouvir. No primeiro ano fiz acompanhamento intenso com fono, o mapeamento do implante e até hoje sigo recebendo esses atendimentos”.
Edilaine fez questão de destacar que, desde os exames, passando pelos implantes e seguindo com a reabilitação, ela não teve nenhum custo. “Se posso dar um conselho para quem está passando pela mesma situação difícil que eu passei é que procure o atendimento através da UBS”.
Recuperação tranquila
Moradores de Sarandi, também no Noroeste, os irmãos Emilly Caroline Guimarães Rodrigues, 10, e Heitor Donato Guimarães Rodrigues, 4, são usuários de implante coclear. A mãe das crianças, Cibele Guimarães, relatou que elas nasceram com deficiência auditiva bilateral severa.
Emilly tinha pouco mais de 2 anos quando veio o diagnóstico de neuropatia auditiva e os implantes (bilaterais) ocorreram logo depois, com intervalo de cerca de um mês entre um e outro. “No dia do aniversário de 3 anos dela o implante foi ativado”.
No caso do Heitor, a necessidade do implante foi descoberta ainda mais cedo, aos quatro meses de vida. O diagnóstico foi o mesmo da irmã. As cirurgias aconteceram pouco depois de ele completar 1 ano.
O tratamento, que é realizado pelo SUS, inclui acompanhamento médico desde antes do implante. Atualmente, os irmãos têm reabilitação com a fonoaudióloga uma vez por semana e mapeamento dos implantes, que acontecem anualmente para Emilly e a cada 6 meses para Heitor.
A mãe contou que, apesar dos filhos serem muito jovens quando foram tratados, a adaptação foi dentro do esperado. Cibele comentou ainda que para ela também foi uma adaptação. “Nenhuma mãe quer que o filho tenha alguma deficiência ou doença, e ter que tomar uma decisão tão grande por um filho é muito difícil. Ter que entregar um filho em um centro cirúrgico é muito difícil”, relatou.
“Mas a recuperação da cirurgia do implante coclear é tão tranquila que no segundo filho foi tudo mais fácil, e hoje sinto uma gratidão por ter tido esse privilégio, de ter conseguido proporcionar a eles um futuro melhor, e saber que foi a melhor decisão que tomei na vida”, acrescentou.
(Com informações da Agência Estadual de Notícias)