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Orelha e Abacate

Brutalidade contra animais expõe falhas sociais e mobiliza o Brasil

Janaína Ávila - Especial para a Folha
31 jan 2026 às 12:25

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Foto: Instagram Polícia Civil de SC
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Casos de maus-tratos a animais estão gerando uma onda de comoção e revolta pelo país. O mais clamoroso deles, o cachorro Orelha, condenado à eutanásia depois de ficar gravemente ferido pelas mãos de um grupo de adolescentes em Florianópolis, capital de Santa Catarina. O caso tem desdobramentos criminosos, com suspeitas de tentativas de coação de testemunhas por parte de familiares dos suspeitos e de outros atos de crueldade anteriores, como a tentativa de afogamento de um cachorro que conseguiu escapar.


O laudo da morte de Orelha revela a brutalidade e violência do ataque: inchaço grave na cabeça, olho saltado, sangramento na boca e no nariz, fraturas e outras complicações. A Polícia Civil de Santa Catarina, que investiga o caso, deflagrou uma operação para cumprimento de mandados de busca e apreensão contra os adolescentes e os adultos responsáveis, com a apreensão de celulares e dispositivos eletrônicos.

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Até o momento, a polícia já ouviu mais de 20 pessoas e analisou mais de 72 horas de imagens colhidas em 14 câmeras de monitoramento públicas e privadas. Ainda ninguém foi preso. Após a repercussão do caso Orelha, foi aprovada, em Santa Catarina, a Lei nº 19.726, que institui a Política Estadual de Proteção e Reconhecimento do Cão e Gato Comunitário. O texto garante que esses animais também precisam ser protegidos pela sociedade e pelo poder público.


Dias depois, no Paraná, outro cão morreu em Toledo, vítima de um tiro que perfurou o seu intestino. Ele se chamava Abacate e, como o Orelha, era um cão comunitário, nome dado aos animais de rua que acabam sendo adotados pela vizinhança e dela, recebem comida, cuidados, um abrigo e carinho. Na cidade do Oeste paranaense, as investigações prosseguem. De acordo com o delegado da 20ª Subdivisão Policial da PCPR em Toledo, Alexandre Marconi, o cuidado é seguir com as averiguações sem deixar se levar por informações que possam atrapalhar os trabalhos. “Queremos tranquilizar a população que o caso é grave, está sendo investigado e não ficará impune”.


As primeiras informações apuradas pela Polícia Civil dão conta que o tiro foi intencional, um agravante. “A pessoa que cometeu esse ato será responsabilizada”, diz. A pena para maus-tratos a cães e gatos, quando resulta em morte, varia de dois a cinco anos de prisão, de acordo com Marconi. A PCPR segue em diligências para tentar localizar o autor dos disparos.


Casos não são isolados

Em Londrina, as notícias de maus tratos de animais também ganharam repercussão. Quem esquece das cenas do cachorro Bento apanhando covardemente na sacada de um prédio na zona sul em julho do ano passado. Em novembro, um cão morreu enforcado pela corrente na Zona Norte da cidade, tentando pular o muro da casa do tutor. Casos que não são isolados.


De acordo com dados do BEA (Núcleo de Bem-Estar Animal) da CMTU (Companhia Municipal de Trânsito e Urbanização de Londrina), entre janeiro e dezembro de 2025, foram 1.184 denúncias de maus tratos, 383 cães e gatos resgatados pelos serviços de apoio municipal e outros 92 cavalos recolhidos, números dentro das expectativas de acordo com o diretor do BEA, Lucas Ferreira. Interventora oficial provisória por determinação judicial da antiga ADA, a Associação Defensora dos Animais, desde maio de 2024, a CMTU mantém albergados atualmente pouco mais de 400 animais.


“O principal trabalho da equipe de fiscalização das denúncias de maus tratos da CMTU é a orientação à população. Antes de tomar medidas mais rígidas, o nosso papel é garantir que a população tenha consciência de qual é a melhor forma de cuidar dos seus animais. Isso garante que a gente tenha um nível de recorrência muito baixo em denúncias de maus tratos”, afirma Ferreira. A reincidência nas denúncias registradas no ano passado foi praticamente zerada, de acordo com o diretor, isso graças ao trabalho de orientação da população em conjunto com a fiscalização.


“Claro que denúncias permanecem dentro de uma recorrência, mas notamos que estão diminuindo cada vez mais”, completa. No ano passado, o Hospital Veterinário Municipal atendeu 9,3 mil animais, com consultas eletivas, de urgência e emergência e mais de mil internamentos. “O maior número de atendimentos no hospital, se tratando de urgência e emergência, está relacionado a atropelamentos e acidente entre animais. É claro que existem sim casos de maus tratos, muitas vezes por ambientes insalubres que geram alguns tipos de doença mais do que os casos de urgência de seres humanos contra os animais. Pontualmente isso já aconteceu, os tutores foram responsabilizados e os animais tiveram todos os cuidados para terem a saúde e bem-estar preservados”, relata o diretor.


Para tentar conter o abandono e o consequente aumento da população de animais nas ruas, a administração municipal promove campanhas de castração regulares e outras políticas públicas como o Banco de Ração para a população de baixa renda ou protetores independentes, tudo associada à assistência do hospital. “Foram quase 5 mil castrações no ano passado, tanto no Hospital Veterinário quanto no Castra Móvel. Conseguimos fazer com que a população tenha mais consciência e aumente as próprias responsabilidades em relação aos animais”, comenta.


Para os casos mais críticos, a administração conta com o apoio das forças de segurança, tanto da Guarda Municipal quanto da Polícia Militar. “Ao mesmo tempo que a CMTU consegue oferecer o suporte aos animais, as forças de segurança conseguem lidar com o cidadão que cometeu os crimes de maus tratos. Essas ações em conjunto têm nos ajudado a alcançar um nível de correção, orientação e punição dos crimes que acontecem com os animais da cidade de Londrina”, analisa Ferreira.


Sobreviventes acabam traumatizados

O Hospital Veterinário da Unifil atende Londrina e região e mantém um convênio especial com a Prefeitura de Cambé para o atendimento de animais resgatados naquele município e que necessitam de atendimentos clínicos. Com cerca 25 profissionais no quadro funcional além dos estudantes, o hospital, com 15 anos de atuação, recebe casos não apenas de animais domésticos, mas também de animais de grande porte, silvestres e selvagens, com uma marca de mais de 400 atendimentos mensais.


Para a coordenadora, Daniele Martina, a prática de maus-tratos contra os animais sempre existiu e se antes era tratada como algo corriqueiro, hoje ganha mais visibilidade com a exposição midiática, como no caso do cachorro Orelha. Ela explica que quando um caso assim chega ao Hospital, geralmente vem através do cuidado de alguém que já fez o resgate e com isso assume toda a responsabilidade do tratamento e até das despesas.


Mas nem tudo são flores: porque alguns animais acabam sendo abandonados no hospital. “As pessoas transferem a responsabilidade. Tem o lado do agressor que maltrata, mas também tem o lado da pessoa que resgata e depois não assume as consequências disso e no fim das contas, quem paga o preço é o animal”, revela a médica veterinária, que acabou adotando um filhote abandonado que o pai deu para o filho pequeno e o menino decidiu arremessar o bichinho contra a parede.


“O animal veio para fazer a eutanásia aqui porque estava todo quebrado e quem trouxe não tinha condições de arcar com o tratamento. Acabei adotando e assumindo toda a responsabilidade”, relata.


Ela explica que o animal que passa por uma situação de agressão e sobrevive se torna um ser traumatizado, com um comportamento que, muitas vezes, reproduz o que ele viveu. "O instinto de sobrevivência aflora e o trabalho de ressocialização exige do profissional um processo de adestramento para que ele possa voltar a entender que agora as coisas serão positivas, que ele está fora de perigo”, afirma Martina.


A médica veterinária não perde o otimismo mesmo diante de tanta crueldade. “Alguma mudança já está acontecendo porque providências estão sendo tomadas e os culpados, penalizados pela lei. A população começa a se conscientizar da gravidade da situação e de que um comportamento de violência não faz nenhum sentido hoje, com tantos avanços sociais. Antigamente, a violência contra os animais era quase que irrelevante, as pessoas não tinham informação, escolaridade, era outra sociedade e realidade cultural. Hoje isso não é mais admissível”, analisa.


A Unifil mantém um projeto de extensão há 12 anos, de educação ambiental, que leva estudantes da Rede Municipal de Ensino para conhecer o trabalho do HV. “Nosso objetivo é conscientizar as crianças, desde muito pequenas, a respeitar e não maltratar os animais”.


Atos de crueldade são um sintoma social

O caso do cachorro Orelha trouxe à tona outros aspectos da sociedade atual, apresentando um cenário onde a violência parece coisa corriqueira. De acordo com as investigações, os suspeitos da agressão que levou à morte o animal são adolescentes, bem crescidos e criados. Para o professor do departamento de psicologia geral e análise do comportamento da UEL (Universidade Estadual de Londrina), Alex Eduardo Gallo, a crueldade contra animais aponta para um critério preocupante em um eventual diagnóstico de transtorno de conduta.


Uma inclinação à violência contra um ser indefeso, para o especialista, pode revelar um sintoma social. “Essa é uma questão delicada. Um sintoma social ligado à violência inaudita poderia ser a polaridade que estamos vivendo na política. Discursos proferidos por autoridades, que enfatizam a violência, a tortura, o extermínio, acabam incentivando tais atos, que muitas vezes são cometidos contra pessoas ou seres indefesos. Com certeza estamos tendencialmente mais violentos”, avalia.


Para Gallo, no caso dos recentes casos de maus tratos, faltou empatia, algo que se aprende e não é inata. “A falta dela em um transtorno de conduta é comum, enquanto a empatia atua como um fator protetivo contra o desenvolvimento desse transtorno. Estamos, como sociedade, falhando ao permitir discursos e práticas de ódio e no micro estamos falhando em não ensinar empatia, no convívio familiar, desde criança”, afirma o psicólogo.


“Enquanto algumas pessoas desenvolvem uma tendência de proteção, reconhecendo os direitos dos animais como prioritários, outras pessoas acabam tendendo ao oposto, matando com crueldade. E não só contra os animais, temos isso em relação aos humanos. Os dois movimentos ocorrem juntos na sociedade. Uma parte luta pela proteção de animais e pessoas vulneráveis e outra parte considera desnecessário”, comenta.

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Questionado se a sociedade atual está perdendo as noções de humanidade e se a comoção causada pelo caso do cachorro Orelha pode promover mudanças, o psicólogo diz que esse sentimento pode ser um combustível desde que as ações sejam contínuas. “Basicamente, as famílias falhando em não ensinar respeito, empatia, cuidado, e ao mesmo tempo, uma proliferação de discursos de ódio que banaliza a crueldade. Como no caso da cadela Manchinha, que foi assassinada pelos seguranças de um supermercado em Osasco em 2018. Houve comoção, mas depois de um tempo caiu no esquecimento”, relembra.


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