Dias atrás tomava um café com dona Marieta, minha vizinha e avó do Carlinhos, um menino de seis anos e meio. Falávamos sobre as dificuldades que enfrentam as pessoas com deficiência visual. Ela elogiava a coragem de um jovem cego que morava no outro quarteirão.
Wanda colocou mais bolachas sobre a mesa. E ficou escutando.
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– Dona Marieta – disse Wanda, interrompendo a conversa – eu estava caminhando para o ponto do expresso quando vi um rapaz que para andar batia com aquela bengalinha. Tadinho!.. ele era cego e conseguiu atravessar a rua sozinho. Tadinho!.. Chegou o ônibus. Ninguém deu o lugar, dona Marieta, ninguém. Esse povo é safado mesmo, não é? – Wanda mordeu uma bolacha e continuou falando:
– Ele estava de pé se segurando... O ônibus, lotado. O ônibus andando. Ai o cego perguntou: O próximo ponto é Praça do Japão? – Sim, respondi eu, porque era mesmo. O cego desceu e o ônibus, ele não conseguia ver, mas conseguiu ir onde queria.
– Claro, ele é cego não é burro... – retrucou o Carlinhos.
Dona Marieta riu, depois comentou: – Carlinhos, deve ser difícil chegar a um lugar que a gente não pode enxergar...
– Sim, meditou Carlinhos, o cego chegou onde queria porque o importante não é ver, avó, o importante é saber... saber aonde a gente quer chegar.
– Sabido o piá! – exclamou Wanda.
Nesse momento, eu pensei que Carlinhos tinha descoberto por si mesmo uma regra importante para a vida. Para chegar algum lugar é preciso saber qual é nosso objetivo. Às vezes pensou que Carlinhos é um sábio, um pequeno sábio que gosta de brincar com aviãozinhos.