Falando de Literatura

Sem culpas, só estrelas - crônica de Neyd Montingelli

08 out 2014 às 09:09

Há uns meses atrás minha filha de 13 anos falou desse livro. Disse que todas as amigas estavam lendo e o pai foi correndo comprar. Aqui em casa quando se trata de livros, o assunto é sério.

Perguntei qual o assunto do livro, se era um romance ou sobre algum artista, pois meninas desta idade tem paixões sem medidas por bandas, atores, cantores. Fiquei surpresa com a resposta:
- Não. É sobre vários jovens que tem câncer e que estão sofrendo. Alguns morrem.


Oh! Levei até um susto. Como é que minha filha completamente sonora, nosso couvert artístico ambulante, a alegria da família, foi interessar-se por um tema desse?
E o pior: não foi só ela! Todas as jovens da idade dela adoraram esse livro. As amigas da sala de aula, das redes sociais, as primas, TODAS já leram e comentam sobre o livro. Virou uma febre!


Nós conversamos sobre vários assuntos e sempre falamos os livros da escola, mas ESSE livro foi a pauta de quase todas as nossas conversas durante o tempo que ela estava lendo. E ao final de cada papo animado, vinha a frase dela:
- Mãe, você tem que ler esse livro!


Então, ao fim de dois meses de intensa e dramática leitura, ela entregou-me o livro como se fosse uma pedra preciosa para eu ler e recomendou que eu tivesse cuidado para não me emocionar.


Bem, só comecei a ler o livro quando li aquela matéria da mãe que exigiu que esse livro fosse retirado da biblioteca para os jovens não lerem. Realmente não entendi a preocupação dela. Criamos os nossos filhos cercados de toda a proteção possível, com a melhor alimentação, casa, conforto, roupa, tecnologia e achamos que estamos dando o melhor de nosso amor. De repente eles nos mostram que não é só (tudo) isso que precisam ou querem. Um tema bem fora da realidade deles, o câncer juvenil, chamou a atenção e eles quiseram saber mais, mas não do ponto de vista médico e sim do lado EMOCIONAL.


A ficção mostrou para eles a possibilidade da convivência quase normal com uma doença fatal para alguns, mutiladora para outros, castradora de sonhos para outros. E envolvendo o amor, pois para os jovens o amor é o ponto alto de tudo, mesmo no conflito e quando querem protestar.


Outros temas poderiam ser abordados em forma de romance dirigido à juventude usando o exemplo da criatividade de John Green. Talvez assim pudéssemos entrar nessa mente extraordinária desses nossos novos jovens e mostrar a realidade desse mundo cheio de verdades veladas.


O amor é fundamental para a juventude atual, mesmo que seja fatal.

Neyd Montingelli é escritora, autora dos livros "Histórias de um caixa da caixa" e "Nuvem com zíper", da editora Instituto Memória. Neyd foi convidada para fazer parte da Academia de Letras de Araraquara/SP e tomará posse em novembro/2014.


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