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Romãs - poema de Miguel Sanches Neto

19 dez 2011 às 13:12

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Gostaríamos que tivesse
nascido ao acaso,
de sementes excretadas
por pássaros



a romãzeira do quintal
comprada
na loja de produtos
agropecuários

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mas tivemos que esperar
a frágil muda
adotar uma terra
inculta.


Da primeira florada
colhemos as cinco
frutinhas
saciando a fome.

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Fome
do que um dia fomos
já que toda romã
vem da infância.


E foi com gula
que rasgamos a fruta
para repartir
seus rubis.

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Na nova florada
duplicaram as romãs
que vergam
frágeis ramos.


A primeira delas
rachou logo
e foi invadida
por formigas.

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De longe
apenas olhamos
as nove romãs
que ainda restam.


Esperaremos que todas
se desperdicem
ou que alimentem
os bichos?

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Mesmo as romãs
viram rotina
neste jardim
rente à vida?


Acordemos cedo
amanhã
e disputemos
róseas romãs,

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inventando
alegre vinho
em lábios
ilícitos,


para que insetos
e bichos
não nos tirem
os prêmios


e ao cuspir pelo jardim
sementes insanas
surja de nossas bocas
um pomar de romãs

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Miguel Sanches Neto é autor dos romances Chove sobre minha infância, Um amor anarquista, A primeira mulher e Chá das cinco com o vampiro, das coletâneas de contos Hóspede secreto e Então você quer ser escritor? Colunista do jornal Gazeta do Povo, recebeu o Prêmio Cruz e Sousa (2002) e o Binacional das Artes e da Cultura Brasil-Argentina (2005). Mantém uma página no twitter: http://twitter.com/miguelsanchesnt.Miguel Sanches Neto é escritor e poeta premiado.


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