Maria foi visitar sua prima Luiza, que morava em um prédio de esquina de uma avenida movimentada. Na porta do prédio havia um bêbado sentado nos degraus, com uma máscara na mão. Maria sentiu medo dele e voltou para sua casa.
À tarde, foi ministrar aulas de pintura. Na saída falou com Cidinha, a mulher da limpeza, que estava passando o esfregão pela escada. Cidinha disse:
– Meu pai era bêbado...lembro que chegava em casa cambaleando.... falando sozinho, sem nexo. Minha mãe gritava. Tenho trauma da época de infância.
– Entendo – compadeceu-se Maria. – Deve ser terrível ter um pai bêbado. Você deve guardar recordações terríveis dele.
– Recordações ruins de meu pai? Não! Você não está entendendo Maria, meu pai era maravilhoso... Eu tenho recordações ruins de minha mãe.
Silêncio. Maria, com olhos esbugalhados, ficou olhando a mulher da limpeza.
– Sim, meu pai era bêbado, falava demais... só isso. Eu tenho recordações terríveis de minha mãe. Ela gritava, xingava, reclamava. Era uma mulher insuportável... Meu pai era um homem bom e carinhoso. Minha mãe era uma bruxa...
– Talvez por isso seu pai bebia... – disse Maria num fio de voz.
–Eu também acho. Foi minha mãe que o levou à bebida. Meu pai era tão bom. Eu o amava tanto... ele brincava comigo, ainda bêbado ele brincava comigo. Minha mãe nunca brincou comigo.
Maria afastou-se. Deixou a pobre senhora da limpeza sozinha com suas lembranças.
Chegou em casa com a mente confusa. Sempre havia odiado bêbados e agora?