SINTONIA
Poema de Antonio Thadeu Wojciechowski SINTONIA Duas da madrugada. Sono que é bom, nada. Alguma coisa estranha me incomoda muito. Um cheiro doce invade o quarto e chega junto como se à pele se aderisse outra camada. Me sentindo quase uma criatura alada, fico leve, num transe hipnótico profundo, como um zumbi, quase vivo, quase defunto, assombrando a mim mesmo e à minha alma penada. Mas foi no clima dessa noite mediúnica que eu percebi uma oportunidade única: "Ah, meu Deus, a que devo a honra da visita? Justo eu que fui sempre pessoa esquisita, que roubei uns trocados de uma capelinha, e que fiz malcriação e matei passarinhos e menti, falseei, entre outros pecadinhos, que o Senhor deve ter grifado em Sua listinha." Dos quatro cantos do meu quarto, soa a voz que nunca ouvi mais rouca: "Meu poeta, escuta! Pra Deus, nada adianta ser ou ter. Nem nós, desvendamos desígneos de Sua batuta. Anjos, como eu, sofrem, como tu, demais. O tal do livre-arbítrio é flor que se cheire, foi criado por Deus e fim. Mas ai daquele, que em plena primavera não leu Seus sinais." Mais tímido que noivo virgem, argumento: "Mas se demônios, anjos também pagam penas, Deus criou este mundo como farsa apenas. Somos todos uns burros porque Esse Jumento resolveu pregar peças e se divertir às nossas custas? Tem cabimento esse troço?" Perplexo, o anjo teve ganas de subir. É que o problema não era só meu, mas nosso. "Bem lembrado. Cristo mandou baixar a crista. Mas Deus, todos bem sabem, vive nas alturas e lá do alto não se lê as Escrituras, ao pé da letra. Deus também é um artista." Irônico, escarneço: "Ah, sim, só faz arte." E o anjo enfurecido: " Todos tem problemas. mas choros, dores, não são os únicos temas a serem resolvidos. Deus é uma parte, porém em toda parte está Todo inteiro. No sofrimento ou alegria, dia e noite, faz uso do Seu bálsamo ou do Seu açoite e sem querer saber se é lobo ou carneiro." Retruco: " Então tanto faz o que fiz, né?" E o anjo perdendo a paciência comigo: "Será que nada existe além do teu umbigo? A mão que bate pode fazer cafuné, pois é teu pensamento inferno ou paraíso. Em tua voz interior, Deus fala certo, mas me parece estar pregando no deserto. É por isso que eu olho bem aonde piso." Eu, um tanto confuso, ainda tento a última: "Pelo que entendi a alma é como um rádio, a gente sintoniza até a do diabo, as estações são muitas, tipo escolha múltipla." O anjo então sorriu-se todo: " Agora sim, falaremos de igual pra igual, seu animal! Pense em Deus como uma extensão de ti em mim e por todos os séculos nem bem nem mal!"
Poema de Antonio Thadeu Wojciechowski