Você alguma vez sentiu-se como um relógio de Dalí? Eu sim, algumas vezes. E conheci pessoas que também tiveram essa sensação.
Veja: a persistência da memória mostra relógios moles que marcam horas diferentes (tempo caótico?) enquanto o quarto relógio (o relógio vermelho) é devorado por formigas.
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Só um gênio como Dalí poderia criar essas imagens que podem ser interpretadas de diversas maneiras. Crítica ao mundo moderno?... As formigas seriam os operários. O tempo devora homens e objetos. O tempo psicológico?...
A preocupação com o tempo?... Ainda que a vida de uma pessoa esteja organizada, essa organização é provisória. Já os ecologistas pensam que Dali mostrou que se o meio ambiente não for respeitado, o mundo será convertido em um deserto.
Em minha visão, muito subjetiva (ninguém precisa concordar), os relógios podem ser pessoas desajustadas tentando ajustar-se ao mundo moderno (esse mundo devorado pelas formigas).
E nosso mundo não está se desintegrando? Nosso cotidiano não é pesado como o trabalho das formigas?... E muitos de nós não estamos fazendo esforços para ajustar nossos relógios e viver ao ritmo do mundo? As pessoas falam: já ninguém faz visitas como antigamente. Não há tempo. Não posso olhar para os problemas dos outros, não há tempo. Só posso olhar meu próprio umbigo.
O que você pensa dessa pintura, interpretada tantas vezes e de formas tão diferentes? Essas imagens são realmente arquetípicas e cada pessoa pode dar uma interpretação diferente. Pois quando uma imagem fala à nossa alma – nossa alma expressa sua emoção.
Como disse Gala, a esposa de Dalí: "Quien lo vea no lo olvidará jamás".
Dediquei alguns humildes versos a essa incrível obra de arte:
O personagem dos longos cílios empurra
a aldrava dos sonhos
e novamente no deserto inóspito perto do mar,
os ternos relógios paranóico-críticos tentam acertar as agulhas
– como pessoas despreparadas para o mundo.