A mala vermelha era levada pelo menino para todos os lugares. Ninguém podia mexer nela a não ser o menino, seu dono.
A mãe já tinha tentado fazer com que o menino desistisse dela várias vezes, propôs trocá-la por um presente, mas o menino sempre respondia que não podia trocar pois dentro daquela mala estavam seus tesouros.
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- Como assim? Perguntava a mãe.
E o menino de cinco anos olhava para ela com aqueles olhos castanhos brilhantes, o cabelo cor de mel com a franja caída sobre a testa, as mãozinhas irrequietas de quem tem um mundo inteiro para descobrir, e dizia:
- Meu tesouro, eu guardo aqui.
- Ah, menino. Então deixa eu ver...
- Não! É proibido! Pode ser que você goste e queira pegá-lo de mim.
E a mãe não conseguindo mais segurar o riso respondia: - Tá bom,vá brincar lá fora.
O menino virava as costas e saia arrastando o que um dia já fora uma mala de viagem vermelha. Lá no fundo do quintal ele abria a mala e passava a tarde colocando coisas lá dentro, às vezes olhava para dentro da mala com um ar de reprovação e tirava algo lá de dentro, era um sinal de que aquilo já não fazia mais parte de seu tesouro.
Uma noite a mãe não se agüentando de curiosidade, esperou o menino dormir e foi lá abrir a mala para ver o que tinha dentro. Quando abriu não conseguiu conter as lágrimas, havia lá dentro: folhas secas, um soldadinho com a perna quebrada, um pequeno bicho de pelúcia, recortes de revistas antigas, dois carrinhos que já tinham perdido as rodas e penas de passarinho.
E passando a mão nos cabelos macios do menino que já dormia profundamente pensou:"São mesmo os tesouros de uma infância bem vivida."