Sandoval guardou o violão e colocou o casaco. Eram três da manhã, o bar fechou e o bêbado caminhava – entenda-se, cambaleava – para sua casa. Andou e andou. Sentiu desejos de urinar. Apoiou-se numa árvore e começou a fazer xixi.
– Ei, você está me molhando.
Sandoval arregalou os olhos. Não havia ninguém por perto a não ser um pato. Por pura diversão começou a molhar o pato, gritando: Chuva, patinho! Tá chovendo, chovendo.
– Seu safado, você deve estar bêbado para fazer isso! – reclamou o pato.
– Estou... sim.. sim... – afirmou o Sandoval. – Você fala, pato?
O pato não respondeu. Começou a choramingar:
– Ninguém gosta de mim. Eu sou um pobre pato sem família. Ninguém me ama.
– E eu com isso? – disse Sandoval.
– Nada... você não tem nada com isso. Desculpe – disse o pato. E começou a chorar. Era um choro de pato, mas dava para entender que estava triste. Era um choro longo, agudo, um Cuaaaaaac.... cuaaaaaac.... entre lágrimas.
– Ei, camarada – disse Sandoval para o pato que se afastava em pranto – Quer uma cachacinha? – E tirou uma garrafa pequena do casaco. – É o que uso para apagar as mágoas.
– Obrigado, disse o pato – tomando um trago, enquanto o homem segurava a garrafa – Você é generoso...
– Que nada, compadre. Amigo é para essas coisas.
– Você é meu amigo??!!! – gritou admirado o pato, abrindo as asas e dando um pulo de alegria.
– Claro. Os dois estamos na pior... temos que ser amigos. Prazer em conhecê-lo, pato, eu sou o Sandoval, eu sou o rejei... rejeitado.
– Prazer. Eu sou o Patinho Feio da história de Andersen.
– Você é o Patinho Feio, aquele que no final da história se transforma num bonito Cisne?
– Eu me transformo em pato sempre que uma pessoa se transforma em algo feio e esquece tudo de bom que existe dentro dela. Eu falo de seu coração, cara. Eu falo daquele Sandoval alegre que sonhava com coisas boas, o amor, a amizade, o triunfo....
– Se é assim, você continuará sendo sempre um Pato, amigo, porque eu... eu sou um fracasso.Eu tenho coração de cachaça. Não escutou a canção?
– Não, que canção? – perguntou o Patinho Feio.
O bêbado começou a cantar e dançar, uma mão apoiada na árvore.
"Coração de cachaça,
me dá um beijo, me abraça,
se você quer dançar, só precisa escutar esta música alegre.
rebolar.. rebolar...
Coração de cachaça,. esta música arrasa,
a negona, o negão, a polaca também, todos podem dançar,
ao som de minha canção. Coração de cachaça..."
O bêbado parou. Ohou fixamente o pato e disse – eu sei que você nunca escutou porque a inventei eu mesmo... Eu era músico, compositor, poeta, boêmio. Todos me criticavam... todos... cri-ti-ca-vam. Minha mulher, a santinha, a chatinha... foi-se embora. Me abandonou – bebeu mais um gole de cachaça. Eu moro sozinho numa pensão. Quer passar a noite lá, pato?...
O pato aceitou. Não tinha mesmo aonde ir. Sandoval colocou o Pato embaixo do casaco cinza para entrar na pensão. O dono não permitia animais. Entrou no quarto. A cama estava desarrumada. Espalhadas no chão, roupas, garrafas vazias.
– Esta é minha casa – murmurou, jogando o Pato em cima da cama.
– Você precisa escrever essa música.
– Eu já não escrevo mais – disse o bêbado, jogando-se sobre a cama.
– Você vai voltar a escrever... pois eu estou cansado de ser o pato feio por sua causa. Não entende, Sandoval? Eu sou o rejeitado, o marginal que vive em cada ser humano. Ou você acha que é o único marginal do mundo? Não! Homem, não! Cada vez que uma criança é rejeitada no jogo de futebol ou uma menina é chamada de feia, cada vez que uma pessoa fica desempregada ou um velho é jogado numa casa de repouso, cada vez que alguém é humilhado, cada vez que alguém erra ou se sente rejeitado... eu deixo de ser cisne e me transformo no Patinho Feio.
– Atualmente isso se chama falta de auto-estima... – interrompeu o bêbado.
– Isso mesmo! – confirmou o Patinho Feio. – Quando as pessoas têm pouca auto-estima, quando se deixam vencer, decidem não lutar, decidem não tentar por medo do fracasso. Quando um homem ou mulher ou criança ou velho aceitam a rejeição ou se sentem limitados, eu me transformo de novo em pato. Fez uma pausa, fitou Sandoval com olhos brilhantes e continuou: -Por favor, cansei de ser pato. Eu quero ser um cisne. Escreva essa canção... Faça-o por seu amigo Pato.
Sandoval pensou. Já tinha perdido seu amor próprio e o amor pela vida, o que mais poderia perder? Começou a cantar e dançar: "Coração de cachaça..."
Sentou-se, pegou um caderno e escreveu muitos poemas e compôs muitas músicas. Músicas alegres e tristes. Samba e rock.
Dormiu quando a cidade começava a acordar e as pessoas iam para o trabalho. Sandoval acordou às quatro da tarde. Lembrou do Pato. Procurou-o pelo quarto. Não estava. Só achou os poemas e as músicas que havia escrito na madrugada. E numa das folhas havia uma pegada... podia-se ver claramente o pé de um pato.
Ninguém acreditou na sua história. Coisas de bêbado, patos não falam, disse seu amigo Joaquim. O Sandoval não se importou. Era ele quem necessitava acreditar, não os outros. Registrou sua música e levou-a para as gravadoras e estações de rádio. A princípio, poucos se interessaram, mas ele não desistiu. E, de repente, as coisas começaram acontecer. Alguém gostou. Um conjunto gravou "Coração de Cachaça". Ficou em primeiro lugar nas paradas. Sua vida mudou. Suas canções tornaram-se populares. Foi entrevistado várias vezes na televisão.
Dois meses depois, mudou para um apartamento. Comprou alguns móveis, mas levou sua cama, essa cama onde o pato tinha deitado. Fez um desenho do pato, o pato branquelo, com lágrimas nos olhos e o bico para baixo. Colou a figura na parede do quarto.
E nessa noite, antes de dormir, fixou seu olhar no pato triste colado na parede. Percebeu uma luz dourada, em forma de espiral, saltitar sobre a figura. E viu o pato que havia desenhado, o pato marginalizado, o pato desprezado, o patinho feio, transformar-se num belo cisne. Num cisne triunfante.