Falando de Literatura

NAMORAR UM GATÃO?

31 dez 1969 às 21:33


Sempre achei estranho relacionamento amoroso entre maturidade e juventude. Talvez com o tempo se imponha com força, e seja comum ouvir conversas como estas: "Estou despontada, pois meu namorado é mais velho que o namorado de minha mãe" ou " a namorada de meu avô é mais jovem que eu".

Não sei a opinião do leitor, nem sou totalmente contra... às vezes dá certo. Conheço pessoalmente no mínimo dois casais nessa situação e são muito felizes. Se formos observadores veremos que geralmente – nem sempre, mas geralmente - o mais velho tem estabilidade econômica.


Você já refletiu sobre o passo dos anos?.. Aos 15 a gente veste roupa tamanho P, depois vai passando para o M, imediatamente vêm o G, então é preciso o GG... depois do GG vem a cirurgia de estômago. Os anos nos deixam lentos para a ginástica, mas rápidos para o garfo. Parece que a gente vai se aperfeiçoando na arte do gourmet. Comida preenche o estômago e preenche o medo da solidão, medo do fracasso, medo do dentista... enfim comida é um preenchimento natural de estados emotivos variados.


Tudo isso é para dizer que apesar de estar fora de forma e a pesar de não ser rica, não conheço educador rico, mesmo assim eu fui almejada por um desses conquistadores de mulheres da maturidade. Em março do ano passado, eu estava concluindo a primeira aula da Oficina de Redação que ministro no em Curitiba, quando se aproximou um jovem bonitão. Aproximadamente 25 anos, cabelo preto, brilhante, propositadamente despenteado, barba sem fazer, o que lhe acrescia um encanto extra, além de contrastar com suas roupas, com camiseta vermelha e jean de griffe. Com um sorriso de ator premiado em Hollywood, apresentou-se dizendo que queria escrever um livro e necessitava de orientações.


A conversa colou, porque amo falar sobre o tema, quando o rapaz lançou o anzol para ver se havia peixe no rio, não peixe-boi, mas peixe-burro: "professora, o que acha de nos encontrarmos outro dia para tomar um drink e falar mais sobre o assunto".


Sua intenção ficou mais exposta que joelho de escoteiro. Era isso! Pensei. Ele quer consultoria literária de graça. Que gracinha!.. Seu safado!... Sorri e falei: Claro, podemos sair, levarei meus filhos que tem sua idade, assim poderão falar de futebol e de garotas... O sorriso amarelo do rapaz demonstrou que havia entendido o recado. Por um instante os ombros desceram e pareceu abatido. Mas se recompus imediatamente e se despediu com um sorriso lindo, um sorriso de dar inveja aos atores de Hollywood. Talvez o recado dele fosse: "Veja a beleza que perdeu, sua coroa".

Eu saí da sala de aula cantarolando. Ao passar pelo corredor olhei-me no espelho e pensei: eu sou uma coroa feliz. Não posso evitar envelhecer, mas eu tenho a capacidade de manter o bom senso. É isso é muito bom mesmo!..


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