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ESCRITOR POR UM DIA...

31 dez 1969 às 21:33

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Um comentário na televisão impressionou Pedrão. A mulher de vestido vermelho, socióloga paulista, afirmou que artes e literatura estão na moda. Agora tudo mundo é artista plástico, dramaturgo, ator, poeta, piadista ou escritor. Pedrão decidiu ser escritor.

Rodolfo meu vizinho é jornalista, ele colocará meus textos na imprensa escrita, pensou.

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Duas semanas depois ligou para Rodolfo e disse que estava terminando um conto.
– Pode enviar pelo e-mail, vizinho, farei o que puder. Não prometo nada, mas.... vou tentar...


Antes de enviar o conto, decidiu ler o texto para as pessoas da casa. A esposa, a filha adolescente e a diarista, sentadas no sofá, escutavam o conto.

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Pedrão percebeu, com certo desalento, que antes de terminar a leitura, a diarista já se havia levantado e, pegando o esfregão, voltara para a cozinha. Dava para escutar o ruído que fazia limpando o chão com força. Coitada, pensou, apenas sabe ler e escrever, ela não reconhece um bom conto.


Ao terminar o bocejo prolongado da esposa foi mais eloquente que seu elogio forçado e repetido: lindo conto, lindo... lindo... A filha adolescente, mas honesta disse que faltava "tchan" na narrativa.

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A esposa olhou-o de lado... por fim, falou que estava bem para um iniciante, mas...
– Mas?..
– Não sei... falta alguma coisa... ficou horizontal.


Pedrão não esperava isso. Sentiu-se traído pela própria família.

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Nesse momento ligou Rodolfo. Estavam fechando o suplemento de domingo. Um dos jornalistas abriu um e-mail com um vírus e perdeu o trabalho da semana. Havia ficado um espaço de aproximadamente 3.000 toques.
– Pode enviar seu conto pelo e-mail.


Pedrão imediatamente exclamou:
– O mesmo aconteceu comigo. Perdi meu conto!.. não entendo muito de informática...

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Foi até o computador e, com tristeza, deletou o arquivo.Meu conto era horrível, suspirou.


Domingo de manhã Rodolfo passou pela casa de Pedrão. Este o levou até o computador e lamentando-se por ter perdido o conto.


– Licença, eu vou fuçar nos arquivos – disse Rodolfo e abriu a lixeira. Deparou com um arquivo chamado conto. Deve ser este! Exclamou. Imediatamente apertou em restaurar.
– Você deve ter deletado sem querer, Pedrão...

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Pedrão ficou pálido. Eu nem sabia que os arquivos da lixeira podiam recuperar-se, pensou: e agora o que farei?


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