Falando de Literatura

Entrevista com VINICIUS BAIÃO – Diretor da Cia. Cerne de Teatro

27 mar 2015 às 19:13

Entrevista concedida a Carlos Zemek.

Como foi a escolha dos atores para o espetáculo "Ainda Aqui"?
Durante quase dez anos dirigi uma companhia teatral chamada Cenáculo e em todo esse tempo tive Leandro Fazolla em meu elenco. Quando decidi fundar a Cerne, o
Leandro veio junto e passamos, desde então, a coordenarmos essa nova companhia e decidirmos juntos que caminhos de pesquisa e investigação cênica seriam nossas prioridades. Assim, ele está presente desde o início desta trajetória. Em relação ao Higor Nery, posso dizer que resolvi convidá-lo a participar de nossa pesquisa sem ter muita certeza se ele estaria conosco até o final. Eu conhecia pouco de seu trabalho, tinha o visto em cena apenas uma vez. Eu precisava de mais um ator, estava pensando em alguns nomes até que o Leandro sugeriu o Higor. Resolvi convidá-lo sem qualquer compromisso e ele se entregou completamente ao projeto, tendo sido fundamental para o resultado que alcançamos.


Como o público reagiu ao enredo da peça? Ficaram impressionados?
A peça chega nas pessoas por diferentes vias. Nas rodas de bate papo que fizemos após as apresentações, era tocante ouvir relatos tão diferentes e tão emocionados. Falamos no espetáculo de relações humanas. Temas como Alzheimer e regimes totalitários aparecem na história sem qualquer objetivo didático ou panfletário. Quero sempre em meus trabalhos potencializar o humano e como vidas são alteradas bruscamente por conta de adversidades genéticas ou sociais. Ouvimos relatos de pessoas que possuem familiares com a doença. Ouvimos relatos de pessoas que sofreram na pele – e sofrem até hoje – as violências cometidas pela ditadura militar em nosso país. É dolorido cada relato, mas ao mesmo tempo é muito gratificante saber que nosso trabalho é capaz de dialogar com tanta gente.


Essa peça exige muito do ator? Qual foi a reação dos atores Higor Nery e Leandro Fazolla, que, sozinhos, têm que dar vida a uma série de personagens?
O espetáculo é fundamentalmente um grande trabalho de atores. Não seria possível realizá-lo como fazemos sem a disponibilidade, a garra e a entrega de atores tão dedicados ao seu ofício. Sozinhos em cena, sem qualquer adereço ou muleta, dão vida a mais de uma dezena de personagens. Ambos já ganharam prêmios de melhor ator nos festivais que participamos. Em um deles, o júri resolveu dividir o prêmio entre os dois. Temos uma história bonita e dois atores competentes. É isso.


A peça foi escrita e dirigida por você e exigiu muita pesquisa sobre a doença e sobre o militarismo. Fale um pouco desse trabalho.
Como já disse, falamos de vidas humanas. É isso que nos importa. Para este trabalho, a história que contamos fala sobre uma mãe, portadora de Alzheimer, que tem seu filho torturado e morto político. Por envolver temas tão delicados para tanta gente, a pesquisa foi fundamental. Não podíamos, de maneira alguma, abordar tais assuntos de maneira irresponsável. Bebemos em diferentes fontes: literatura médica, documentos históricos, músicas, poemas, entre tantos outros.



Neste momento muitos jovens falam e exibem cartazes proclamando a necessidade de um governo militar e vocês escolhem uma peça no qual a trama se desenrola a partir do desparecimento do filho Maurício, torturado e morto político. A ideia dessa peça é conscientizar sobre os perigos do militarismo? Ou só mostrar um drama familiar?
Não localizamos a peça no tempo, nem no espaço, logo, não estamos tratando da ditadura militar que ocorreu no Brasil. Estamos falando de um tema universal. A história de Maria, Mauricio e Jorginho poderia se passar em qualquer regime totalitário que já tivemos notícia no mundo. Mas é lógico que é impossível dissociar de nossa própria experiência. Por mais dolorido que possa ser, a arte tem também essa função de dar luz aos tempos sombrios da história da humanidade com o intuito de transformá-la. Ouvimos, ano passado, de um jurado que nossa peça cumpre o papel de evitar que se instaure um Alzheimer social. E isso está muito dentro do que queremos. É preciso rememorar para que não se esqueça. É preciso lembrar o quanto houve de sofrimento, desigualdade, violência e injustiça nas ditaduras de todo o mundo para que as próximas gerações não repitam os erros das gerações que as precederam.


A Cia. Cerne já se apresentou alguma vez no Festival do Teatro de Curitiba?
Enquanto companhia, temos pouco mais de dois anos, e neste tempo participamos de diversos festivais de teatro pela Região Sudeste, mas pela primeira vez, vamos para a região sul do país. Será nossa estreia no Fringe.


A peça "Ainda Aqui" ganhou 30 prêmios. Como foi a reação do grupo ao ver que o trabalho foi premiado em vários festivais?
Sem dúvida é uma reação de alegria e satisfação. Nada melhor do que ver um trabalho tão intenso de pesquisa ser reconhecido em tantos lugares. O espetáculo já está circulando há um ano e meio e com certeza ainda tem folego para prosseguir por bastante tempo. Com a recepção tão boa, cresce cada vez mais o desejo por leva-lo a cada vez mais pessoas. Afinal, mais do que pelos prêmios, é pelo público que fazemos nossa arte.


Serviço:
Festival de Teatro de Curitiba 2015 –
Espetáculo: Ainda Aqui
Direção: Vinicius Baião
Elenco: Higor Nery e Leandro Fazolla
Local: Café Teatro Toucher La Lune – Av. Sete de Setembro, 2440 – Curitiba (PR)
Apresentações: 28/03 às 17h; 29/03 às 20h e 30/03 às 14h.
Ingressos: R$ 20,00 (meia-entrada R$ 10,00) nas bilheterias oficiais (ParkShoppingBarigui, Palladium Shopping Center, Shopping Mueller, Disk Ingressos e www.bilhetedigital.com.br)


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