Falando de Literatura

COMADRES (Primeira parte)

31 dez 1969 às 21:33

Janine sempre fora uma mulher bonita. Sabia agradar e seduzir. Os anos passaram e ela – como uma flor - foi perdendo a louçania, mas parecia não tomar conhecimento disso, ao contrário de Ângela.

Ângela, 65 anos, é uma mulher alegre e brincalhona. Rechonchuda, a pele clara, o cabelo preto e as bochechas sempre vermelhas. No dia 15 de Fevereiro, dia do aniversário do neto, a família estava reunida em volta do bolo. Ângela deliciava-se com os brigadeiros. De repente, a campainha toca várias vezes, com um som longo e agudo. Quem será? pensou.


Seu filho, Daniel, correu até a porta e abriu. Janine, a sogra, entrou correndo, os olhos esbugalhados e respirando com dificuldade. Como já falamos, fora uma mulher muito bonita, mas sua beleza declinara com o tempo e, inconformada, esta sempre reclamando de alguma coisa.
– Onde está minha filha? – perguntou.


Marli colocou as empadinhas sobre a mesa e correu ao lado de sua mãe.
– O que aconteceu, mamãe?
– Filha... filhaaaa... – repetiu a Janine quase chorando – desci do ônibus e um homem me seguiu... não sei o que queria... não sei o que queria...
– Mamãe! – gritou a filha, abraçando-a – você esteve em perigo? Ele disse alguma coisa?
– Não... não falou... mas olhava para mim, com um olhar... e ao descer do ônibus vi que ele desceu atrás de mim... e começou a seguir-me... você entende... ele tinha um olhar sensual.


Dona Ângela, pegou mais um brigadeiro e olhou a Janine de cima para baixo – o rosto enrugado, a barriga volumosa, e, ocultando um riso malvado, falou:

– Fique tranqüila... Ele ia a querer o quê? Quando uma mulher é jovem, nunca se sabe... um homem que a segue pode querer sua bolsa ou pode estar pensando em outra coisa, mas.... na sua idade!.. Sejamos honestas, dona Janine, ele ia querer o quê?.. Só sua bolsa, mulher, só sua bolsa.


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