Evaldo Vilela fez doutorado na Inglaterra, pós-doutorado no Japão, Alemanha e Estados Unidos, ex-reitor da Universidade Federal de Viçosa, ex-presidente do CNPq e da Fapemig
1) O senhor está trabalhando no Projeto Agrogenômica juntamente com a Fundação Araucária. Quais os objetivos do projeto?
É um projeto que visa constituir uma rede de pesquisa colaborativa com uma missão específica de capacitar pessoas em genômica e, em primeiro momento, atuar na produção de sementes melhoradas de soja, feijão e também de buscar o entendimento da metagenômica dos microorganismos dos solos do Paraná. Como o Paraná teve muita influência da Mata Atlântica e também da Araucária, possivelmente os solos agrícolas aqui têm particularidades diferentes. Nós estamos buscando melhorar a soja, o feijão e para isso precisamos combinar essas plantas, estudar e usufruir da interação das plantas com os microorganismos do solo. Isso vai nos ajudar a consumir menos produtos químicos, como fertilizantes e agrotóxicos. Nós podemos substituir esses produtos conhecendo e aplicando melhor as características das plantas e microorganismos. Até hoje não se estudou isso de maneira mais aprofundada.
2) O projeto está em vigência há quanto tempo? É possível falar em resultados preliminares?
Ainda não podemos falar em resultados preliminares. Demanda muito tempo e recursos. O Governo do Paraná pela primeira vez está alocando recursos para um projeto de desenvolvimento baseado em ciência, tecnologia e inovação. Seria muito fácil fazer o tradicional arcaicamente feito no Brasil: lança um edital, pega os recursos e distribui um pouco para cada um, a pessoa pega o dinheiro e daqui a dois anos ela manda um relatório que pouca gente vai ler e que vai render dois artigos científicos que a gente nem tem como saber se foi feito a partir dos recursos enviados. Com o Chat GPT qualquer um pode fazer um relatório maravilhoso e se safar. Pensando nisso, a Fundação Araucária decidiu fazer algo diferente, como é feito no exterior. É importante salientar que todo artigo que produzimos no Brasil e publicamos em inglês é um conhecimento que não foi absorvido internamente. Você joga isso na comunidade internacional e a China é a primeira a pegar. Se você tem uma bactéria que degrada plástico, por exemplo, eles (os chineses) são os primeiros a pegar e fazer um produto com aquilo. Assim, o nosso dinheiro acaba, muitas vezes, alimentando outras economias. A partir dessa constatação, a Fundação decidiu usar os recursos para buscar soluções para os nossos problemas e dificuldades. A soja, por exemplo, é um produto importantíssimo de exportação. A planta continua sendo a mesma de muito tempo, apenas melhoramos a questão da produtividade. A genética dela, porém, é importada. Pode ser que daqui a algum tempo nossos compradores não queiram mais a nossa soja e daí, o que faremos? A soja na China gera aproximadamente 1000 produtos, como sandálias, peças para automóveis, feitos a partir dos óleos da planta. Porém, para chegar nesse ponto é preciso mexer no genoma, o que não é barato e não é simples. Nós não conseguimos fazer isso no Brasil em escala. Apenas iniciativas individuais. A Fundação Araucária já está patrocinando o Vale do Genoma, na área de medicina, e decidiu criar o Agrogenômica. Já criamos uma rede colaborativa com 71 pesquisadores, o que é fácil no papel, mas difícil na prática porque nem sempre as pessoas são colaborativas, criamos um ambiente propício para colaboração, e uma gestão de tudo o que está acontecendo. Ninguém pode, por exemplo, publicar artigos científicos sem que haja uma discussão no grupo. Acreditamos que em dois ou três anos nós teremos sementes com genoma brasileiro que as cooperativas, empresas do Paraná e do Brasil vão poder usar no mercado.
*Continua na próxima segunda-feira
*Lucas V. de Araujo: PhD em Comunicação e Inovação (USP).
Jornalista Câmara de Mandaguari, Professor UEL, parecerista internacional e mentor de startups.
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